Surprehendeu-o esse furacão quando já se julgava ao abrigo de paixões. Elle proprio o diz: «Não sei que isto foi que em idade já desviada de pensamentos ociosos cobrei um cuidado novo... Não cuidava que em tal idade amor tivesse poder, agora sei que a nenhuma não perdôa.»
Não lhe soffreu o animo callar-se. Declarou-se, ora com os olhos, á portugueza, naquella linguagem que toda a mulher entende; ora com palavras que ella não percebia, manifestando a sua paixão e esperando que fosse acceita benevolamente, ou pelo menos que lhe désse um doce engano.
«Não quiz mais enfadal-a (confessa elle) com razões, pois eram ditas em vão. Affirmei os olhos nella guiados do coração e d’alma, porque já desesperado de outro remedio aquelle me dava a vida, e chegado a casa fiz um vilancete ao mesmo proposito, e em castelhano, porque me pareceo que aquella linguagem lhe seria mais leve de entender:
«Ya que yo no se hablaros
Pongo los ojos em vos...»
Mas, depois arrependendo-se, compoz outro vilancete em portuguez, «que hei que faço injuria á minha natureza querer bem como portuguez e escrevel-o em castelhano». E dizia-lhe :
«Para se poder passar
O grande mal, quando vem
Ha-se de fiar de alguem...»
Elle confiava-o ao papel, e fazia versos. Torcy não os entendia. E que entendesse?! A maliciosa e frivola pariziense, toda entregue ás futilidades da sua vida de prazer, de festas e de dissipação mundana, era forçosamente avessa áquella furia amorosa, e toda se arripiava com as impulsivas demonstrações sentimentaes do impetuoso Portuguez.
Deixou perceber o enfado que lhe causavam.
Elle então lançou mão de um expediente que poderá surprehender o leitor de hoje. Mas se recordarmos os livros de cavallaria andante, e até mesmo o D. Quixote, tão ingenuamente desastrado em muitos lances amorosos, não estranharemos ver Francisco de Moraes cahir de joelhos aos pés da bella Torcy em plena sala da Rainha de França...