Em plenilunio de mel, a loura Filippa de Lancastre, affectuosa e ternamente enlaçada no noivo, que a politica do pae lhe outorgára, e a quem desde logo a sua alma se rendera, sentiu como que se lhe arrancassem o coração, quando ficou assim, sósinha em terra extranha.
É certo que a rodeavam donas nobres, e cuvilheiras de qualidade, mas todas eram portuguezas. É certo que a acompanhavam Prelados, dignitarios, e doutores, gente de estirpe ou de consideração, mas pouco de molde a saber consolar-lhe o animo saudoso.
Ainda houve, no momento da partida, uma voz que parecia interpretar o seu sentimento. Era Gonçalo Mendes que exclamava:
—«Senhor! N’este Reino sohia de haver um costume de antigo tempo que o homem no anno que casava, não havia de ir em guerra, nem ser constrangido para ella. E vós que ha tão pouco que casastes o quereis agora britar e vos ir fóra do reino?»
D. João I, porém, não era homem que a lua de mel edulcorasse mollemente, nem que cedesse a exhortações de brandura emolliente.
Respondeu com sobrecenho: «que assim lhe cumpria por defensão da sua terra, e fazer damno a seus inimigos.»
E arredou-se do Porto, penetrando em Castella, para ajudar o sogro na sonhada conquista do throno d’aquelle reino.
Fruindo fortuna vária, mas sempre com arreganho, essa pequena hoste, ainda rutilante da gloria alcançada em Aljubarrota, Atoleiros e Valverde, atravessou o rio de Maçãs, entrando em terra inimiga.
Iam os dois condestaveis—Nun’Alvares, o de Portugal—e João de Hollanda, (irmão do rei de Inglaterra), condestavel do duque de Lancastre.
Na vanguarda caminhava o Prior do Hospital, D. Alvaro Gonçalves Camello, emquanto que n’uma das alas montava soberbo Martim Vasques da Cunha, que Mem Rodrigues na sua linguagem imaginadora dizia «ser tão bom como D. Galaaz» o cavalleiro da Tavola Redonda. Acompanhava-o a gente do mestrado de Christo, que levava em vez de bandeira, um grande «prumão» ou pennacho de plumas, n’uma lança de armas.