Para a Torcy zombeteira e artificiosamente esquiva, o poeta portuguez alli ajoelhado era apenas um joguete, um motivo de galhofa, era mais uma pella do torneio com as companheiras que assistiam á scena entre frouxos de riso. Obrigou-o a repetir as queixas e desculpas amorosas em portuguez e castelhano, e, triumphante conquistadora, orgulhosa voltava-se para as outras escarninhas, commentando com malicia com as contorsões da sua victima. Elle, então, escreve no seu caderno:
«Estas palavras me entendeo mal, mas parece que lhe soaram bem (ingenua illusão!) que me mandou duas ou tres vezes que lh’as tornasse a dizer, e porque no portuguez mas entendia peior, quis que as dissesse em castelhano, e virando o rosto para uma dama que estava da outra parte, me deixou, e praticou com ella, parece-me a mim que á minha custa...»
Esta confissão tão sincera não acarreta sobre o pobre apaixonado nem uma leve sombra de ridiculo, como podia suppor-se, imaginando o amorudo quinquagenario, de joelhos, na roda das raparigas, maliciosas, desfructadoras, trocando umas com as outras sorrisos zombeteiros, emquanto escutavam a aravia, para ellas inintelligivel, do romantico declamador.
Pensando que a victima é uma das mais lidimas glorias da litteratura quinhentista, um escriptor de grande engenho, que a paixão trazia tresloucado, perdido, caminhando n’um sonho, aquillo que a leitura do episodio nos inspira é uma irresistivel sympathia pelo auctor do Palmeirim de Inglaterra, e uma inevitavel malquerença contra as levianas encarnicadeiras que assim manteavam o poeta, com a mesma desenvoltura com que os moços da venda hespanhola, se divertiam fazendo saltar Sancho Pança sobre o cobertor.
Não deixou Francisco de Moraes de se sentir, e attribuindo grande parte do seu desfavor a enredos fomentados pela inveja de alguns dos cortezãos francezes, dá largas na sua narrativa ao rancor que lhes dedica, pintando-os constantemente vencidos.
Uma vez é Brecião de Rocafort (Rochefort) que soffre um revez e «fica corrido de fazer tão pouco»; outra vez é Rober Roselim (Ruper) que cahe no chão, abrindo-se-lhe as feridas e soltando-se-lhe as veias; ainda outra vez é o Conde de Brialto (Brialte) levando um braço quebrado, ou o Conde Gisar tirado do campo quasi sem vida.
E sempre os Francezes são apresentados com inferioridade.
Este desforço havia de trazer ao romancista amoroso, e despeitado, consequencias nefastas, como vamos ver.
Entretanto, ia elle terminando o seu admiravel romance.
Leria alguns dos capitulos do seu livro á Rainha Leonor?