É possivel. E não custa a crêr que ella transmitisse a expressão do seu agrado á filha, a Infanta D. Maria, que em Lisboa era o fulcro brilhante da culta Academia.

A esta Princeza deu certamente Francisco de Moraes conhecimento directo dos seus trabalhos. E não só isso, mas até lhe dedicou a novella, quando ella era noiva do Duque de Orléans.

Na douta biographia d’esta Princeza, traça D. Carolina Michaëlis um formoso quadro phantaziando a impressão que a leitura do Palmeirim causaria no cenaculo feminino, composto pelas damas e donzellas da intelligente filha de El-Rei D. Manoel.

«Durante semanas (escreve a erudita academica), as aventuras tanto do fidalgo e poeta namorado, que havia sustentado lá fóra a fama do typo nacional, como os feitos de D. Duardos e D. Florendos, e a esquivez de Miraguarda alimentavam decerto a imaginação do cenaculo. Reunidas na bibliotheca ou na sala de lavor, emquanto a Infanta e as suas damas bordavam custosos paramentos, dando côr e vida ás linhas traçadas por Francisco de Hollanda, as latinas Luiza e Joanna e as musicas Angela e Paula revezavam-se na leitura do Palmeirim. Acabado um capitulo, começava a discussão das bellezas litterarias».

Este romance acabara-o em Pariz, o imaginario poeta e ao passo que ia remoendo a paixão pela endiabrada franceza.

Os ultimos mezes passados em França foi-os arrastando, ora no palacio do Embaixador, ajudando D. Francisco de Noronha no seu labor diplomatico, ora na Camara da Rainha, cujo coração, magoado pelas infidelidades do Rei, se condoía com os tormentos do infortunado Secretario, ora nas galerias de Fontainebleau, onde via passar ás vezes Francisco I, já a esse tempo comballido pelos effeitos da mysteriosa vingança do marido da bella Ferronière.

Junto da Rainha, que delicadamente sabia lastimal-o, sentia Francisco de Moraes o conforto nascido na piedade tão feminilmente consoladora. Do Rei recebia provas de consideração, pois o intelligente monarcha sabia quanto o Palmeirim era notavel. Nos cortezãos, que frequentavam o Palacio, advinhava, sob a contrafeita deferencia, um sentimento mesclado de emulação e de imperceptivel motejo, que as suas infelicidades sentimentaes porventura provocavam.


Quando terminou a Embaixada e o Secretario encofrou nas arcas das bagagens os gibões de velludo, as gargantilhas de renda, que ostentava na côrte, os papeis do Estado, os manuscriptos da sua novella, e, de mistura, as illusões que lhe haviam enfeitado o espirito, experimentou certamente um allivio.

Recordando amarguras e displicencias passadas, e o desprazer de ter vegetado com tão ingrata sorte na atmosphera artificial d’aquella estufa parisiense, bem diversa da distante e saudosa Lísboa, appellava no seu animo para a recepção que lhe estaria reservada na patria.