E não o trahiu essa esperança.
Quando chegou a Portugal já o seu romance tinha corrido de mão em mão, inflamando todas as imaginações femininas e exaltando os animos cavalleirosos.
O proprio Rei D. João III, embora n’essa quadra andasse dorido ainda com a morte de seu filho natural D. Duarte, pelo qual em signal de lucto, tomou um capuz (tão ostensiva foi a sua mágua!...), pelote e carapuça de arbim cardado, não deixou de attender á belleza da obra e aos meritos litterarios do seu engenhoso auctor. Concedeu-lhe logo, bem como a seus descendentes a graça de usarem o appellido de Moraes Palmeirim.
É sem duvida o mais lindo titulo a que um homem de lettras póde aspirar:—usar o nome da sua obra-prima!
Sentiu então a gloria bafejal-o com meiguice, compensando-o de antigos dissabores. E o acolhimento que recebeu da Infanta D. Maria, a quem dedicou a obra, foi dos melhores balsamos para cicatrizar antigas feridas no seu orgulho.
Escutava-o quando elle lhe fallava da mãe, e lhe referia os casos da Côrte franceza. Animou-o, louvou-lhe a novella... Que efficaz unguento é o applauso para alguns espiritos!
O lisonjeiro ambiente, que lhe acariciou o amor-proprio, foi sarando as chagas do amor-paixão.
Esqueceu a Torcy, e nem talvez tomasse cuidado quando em França pelos annos de 1553 ella casou com Luiz de Montberon, Senhor de Fontaines Chalendray.
Entretanto os annos iam correndo e as phantasias do coração assentavam pouco a pouco, como poeira no fundo de frasco tranquillo. Então Francisco de Moraes pensou em casar tambem, como aposentação sentimental.
Não mencionam as biographias os dotes physicos ou as qualidades d’aquella que o acompanhou no outomno da vida.