Outros, porém, e talvez com o faro mais apurado, querem imputar a morte do auctor do Palmeirim de Inglaterra a algum d’aquelles cavalleiros francezes, que tinham sido maltratados no romance.
Levara muitos annos a vingança em fermentação.
Mas n’aquella epocha os livros circulavam morosamente, e os despeitos e os odios conservavam durante muito tempo a força do rancor. Se a suspeita é certa, como parece, Francisco de Moraes teria morrido victima do seu coração que muito tinha amado a formosa Torcy, e victima do proprio talento, com que tão certeiramente alvejou os rivaes, que o tinham supplantado!
A FILHA DE PEDRO NUNES
SUMMARIO
O bem molherigo de Portugal—A donzella Guiomar—moradora na Calçada. Filha do Cosmographo mór—O sabio—Os discipulos—Astrologia—Astronomia—O romance da Filha—Traição do pretendente. A cutilada—Entrada no Convento.
Escrevendo a respeito do «bom molherigo» de Portugal, e especialmente do «valor e animo das mulheres portuguezas», Duarte Nunes do Leão, no livrinho posthumo, a Descripção do Reino de Portugal, que seu sobrinho Gil fez imprimir, falla com particular enternecimento na «donzella moça D. Guiomar,» cujo animo levantado e varonil tanto o assombrou.
Foi o laborioso Licenciado eborense contemporaneo da endiabrada rapariga, e talvez a conhecesse, pois no minusculo mundo da intellectualidade d’esse tempo o Desembargador Duarte Nunes—chronista—e o Doutor Pedro Nunes—cosmographo-mór—embora a identidade dos patronimicos não seja prova de que houvesse parentesco, de certo cultivavam relações de espirito, e até porventura conviveram, visto que ambos habitaram por vezes, simultaneamente, Evora, Lisboa, e talvez mesmo Coimbra.
Acabou Duarte Nunes de escrever o seu livro em 1599, «estando recolhido na villa de Alverca, por causa do mal de que Deus nos livre» (a peste que então lavrava). E como é todo composto de notas, e esta de que nos occupamos foi registada nos seus canhenhos pouco depois do escandaloso caso, a que vamos assistir, não se atreveu o Doutor a esmiuçar circunstancias ou tirar a lume pormenores da picaresca aventura, que tornou celebre D. Guiomar, dando-lhe como alcunha: a da cutilada.