Não que o amedrontasse o genio assommado da resoluta menina, pois as referencias que houvesse de fazer-lhe seriam todas em seu abono. Mas talvez porque na familia do imbelle casquilho coimbrão, heroe da romanesca historia, havia gente de importancia, e creaturas rancorosas e vingativas, como veremos.
É de lastimar que, por esta ou por outra razão, não nos dêem mais informações acerca de D. Guiomar, nem o repositorio a que alludimos, nem as «Noticias chronologicas da Universidade de Coimbra», de Francisco Leitão, onde se encontram os famosos versos, já por alguem attribuidos a Camões:
«Senhora Dona Guiomar.
Moradora na Calçada...»
Mas, á falta de indiscreções de soalheiro, que tornariam mais picante a anecdota, temos de nos soccorrer dos estudos feitos ácerca da vida e obras do seu glorioso pae.
O nome d’este, mais que regionario, mais que nacional, mais que europeu, porque o seu engenho notavel, e a sciencia que possuiu ajudaram os navegadores portuguezes no proseguimento das suas derrotas, logrou fama universal.
Se, porém, as suas obras o tornaram celebre e lhe dão um logar unico entre aquelles, que teem contribuido para fazer crescer o patrimonio dos conhecimentos da humanidade, e se a invenção do Nonio, o pequeno instrumento tão precioso para as observações astronomicas, perpetuou a nome do genial Portuguez, a sua vida, sendo pouco conhecida, escassamente nos ajuda nas investigações para architectar o romance, que deixou a sua filha apontada á nossa curiosidade.
Entre os modernos escriptores, o sr. Alberto Pimentel, aproveitando-se do que diz Duarte Nunes do Leão, um pouco tambem das Noticias de Francisco Leitão, e mais que tudo da propria phantasia, compoz uma novella que, embora interessante, é como muitos dos chamados romances historicos, obra principalmente de imaginação.
Quando o distincto escriptor engendrou a sua Dama da Cutilada, novella que se encontra n’um volume intitulado Portugal de Cabelleira, editado no Pará, em 1875, quasi nada se sabia da vida de Pedro Nunes e nada da de sua filha, além da scena que adiante vamos relatar.
Mas com o recente movimento de estudos historicos, que tem trazido á luz factos ignorados, ou rectificado os confusos, na biographia do Cosmographo-Mór, podemos adiantar-nos um pouco (muito poucochinho!) no campo das conjecturas pelo que diz respeito á filha, conhecendo-lhe a raça, a nacionalidade da mãe, a sua situação social, a regalada mediania em que vivia, o nome do heroe da aventura amorosa, e os motivos plausiveis, que o levaram a um proceder descortez.
Depois de muitos escriptos, além dos que já apontámos, em que se trata das obras, e se dá algumas noticias da vida de Pedro Nunes, como são as de Ribeiro dos Santos, Stokler, Varnhagen, etc., veiu em 1889 Sousa Viterbo, o cego-vidente, que tantos documentos curiosos arrancou ao limbo dos archivos, e publicou nos seus Trabalhos nauticos dos Portuguezes um artigo ácerca de Pedro Nunes.