Esse Principe deixou da sua memoria um rasto luminoso.

Poeta, generoso Mecenas, fogoso guerreiro, arguto estadista, faustoso amphytrião, homem de sciencia e amoroso cavalleiro, quando a gente começa a ler ácerca da sua vida deixa-se insensivelmente ficar a maldizer da sorte, que o poz em quarto logar na série dos filhos de El-Rei D. Manoel.

Seu irmão, o bisonho D. João III, sentia-lhe a superioridade, e, dominado por um semi-ciume, semi-admiração, ora reclamava a sua voz auctorisada no Conselho para a resolução de casos difficeis na administração do Reino, ora contrariava os seus projectos de emprezas guerreiras e allianças conjugaes. Foi contra a vontade do Rei, o qual mais de uma vez lhe promettera um commando, sem nunca o deixar ir batalhar em Africa ou na India, que resolveu fugir de Evora e clandestinamente partir com os navios de Antonio de Saldanha, para levar auxilio ao cunhado, o Imperador Carlos V, contra os infieis.

N’essa expedição pediu para se incorporar um pequenito ruivo, cuja viveza era notavel. Chamava-se Luiz de Camões e ambicionava tornar-se bem acceito do Infante.

Presentia, de certo, o turbulento pagenzito a gloria que o Infante havia de alcançar no cerco de Goleta e na jornada de Tunis, cuja conquista aconselhara, contra o parecer dos capitães de Carlos V.

Do coração amoroso d’este Infante dá testemunho a firmeza com que recusou desposar a Princeza Edwige, filha do Rei da Polonia, com o contrapeso do seu grande dote, porque a esse tempo andava captivo dos encantos da formosa Violante Gomes, a Pelicana, appetitosa judia, de quem havia de nascer o Prior do Crato.

Mas se foi elle proprio quem desviou aquelle casamento, foram outros que o impediram de casar com a Rainha de Escocia, Maria Stuart, de tragica e voluptuosa memoria; com a filha de Francisco I, de França; com Maria, Rainha de Inglaterra (the bloody Mary), com a filha de seu irmão D. Duarte, que foi Duqueza de Parma, e com a que foi mulher de Felippe II, projectos atropelados pelo irmão, pela cunhada, e pelo Imperador.

Tão bem dotado pela natureza e fadado para maiores feitos, este Principe cultivava carinhosamente as lettras. Attribuem-se-lhe, com mais ou menos fundamento, muitos dos sonetos que andam nas obras de Camões, e o Auto do D. Duardos, que figura nas de Gil Vicente, bem como o dos Captivos ou dos Turcos, que se suppunha perdido e que ultimamente foi encontrado.

Tambem d’elle existe um soneto, que se conserva na bibliotheca de Evora.

Além do cultivo das artes, e da faina a que o obrigava a sua alta posição social, applicava este Principe a sua actividade intellectual no estudo das sciencias mathematicas, em que foi leccionado por Pedro Nunes, e escreveu um Tratado dos modos, proporções e medidas, e outro sobre a Quadratura do circulo.