Condiscipulo era d’este Infante, nas licções de Pedro Nunes, um moço de nobre ascendencia, filho segundo de uma grande Casa, onde, como em muitas outras illustres, as lettras eram um segundo morgado, e que, levemente excentrico, revelara desde pequeno um assombroso engenho, e um caracter de rija tempera, que a Historia havia de eternizar nas pedras das fortalezas da India; nas phrases emphaticamente lapidares de Jacintho Freire de Andrade; nas paginas dos Roteiros celebres, nas estancias da Villa de Almada ou nas penedias e bosques silvestres de Penha Verde, para onde se retirava, escondendo soffregamente a lua de mel com uma prima, ou fugindo «com antecipada velhice» ás ambições da Côrte. Arredío e avesso a seducções mundanas, mais ambicioso de gloria que de mercês, e preferindo a honra a honrarias, se não era mimoso na aula régia, onde El-Rei D. João III «que o amava por valoroso, lhe era comtudo pouco affecto, por altivo,» foi tido em alto apreço na aula de Pedro Nunes, onde acompanhava o Infante D. Luiz, de quem foi intimo, e de quem, no fim da vida, havia de receber, com os emboras pela victoria, aquella famosa carta que começa: «Honrado Viso Rei!...»

Porque aquelle rapaz, que ouvia com tão grande proveito a exposição das doutrinas do Cosmographo e que havia d’ellas tirar noções para escrever, «nas horas que lhe perdoavam os cuidados da guerra, a descripção das Costas da India, signalando baixos e recifes, a altura da elevação do Polo em que estão as cidades, restingas, angras e enseadas, as monções dos ventos, condições das marés arrumando as linhas em taboas differentes; tudo com tão miuda geographia que o podera esta só obra fazer conhecido se já o não fôra, tanto pelo valor militar», esse rapaz, era o futuro heroe do Diu, era—D. João de Castro!

A ligação intellectual entre os dois grandes vultos que foram o Infante D. Luiz e D. João de Castro, e a influencia de cada um nas sciencias do seu tempo, dariam ensejo para um capitulo interessante, que seria todo em louvor e exaltação dos merecimentos do mestre commum, o mathematico Nunes.


Outros discipulos teve elle, por diversos motivos attrahentes, e que dariam tambem pretexto a pittorescos quadros evocativos da epocha, se seguissemos em imaginação o doutor envergando o seu gibão de bombazina parda, montado em mula pacata, caminhando pelas congostas e viellas da Lisboa mourisca, em direcção á Alcaçava, onde El-Rei residia ainda, emquanto não se terminavam as obras dos Paços da Ribeira.

Nos aposentos reaes esperavam os Infantesinhos. E, chegado alli, levemente curvado pelo habito do estudo, vel-o-hiamos dobrar o joelho perante esses pequenos Infantes que, uns mais rebeldes, outros menos, lhe ouviam as praticas.

O seu perfil adunco, revelador de homem de nação, desenhando-se sobre o damasco vermelho das paredes, daria á scena uns tons caracteristicos e significadores das relações que entre as duas raças até esse tempo existiam. De uma parte, os christãos aproveitando as faculdades scientificas ou financeiras dos judeus de quem colhiam conhecimentos, remedios medicinaes, bom manejo de finanças; e da outra os hebreus recebendo em troca uma certa tolerancia nas leis e nos costumes, e auferindo elevados juros de suas agencias.

Breve ia acabar este estado de cousas, com o começo das perseguições já proximas.

Entretanto, a fama de christão novo, que vagamente pairava sobre o Cosmographo, nunca o prejudicou directamente.

Reis e Principes, mesmo depois, em tempo do Cardeal Rei, intransigente e inquisidor, tinham pelo glorioso mathematico carinhosa predilecção.