Nos eruditos artigos publicados na Revista da Universidade de Coimbra pelo Dr. Luciano Pereira da Silva, intitulados: A Astronomia dos Lusiadas, o sabio professor expõe lucidamente o estado das sciencias astronomicas no seculo XVI, as ideias de Pedro Nunes e a applicação que d’ellas fez Luiz de Camões com a leitura do Tratado da Esphera publicado em 1537.

A esses artigos remettemos o leitor, curioso d’estes assumptos, que, se ainda os não conhece, nos dará alviçaras pelo bom aviso. Como tambem lhe aconselhamos os preciosos trabalhos do actual Director da Torre do Tombo, o Sr. Antonio Baião, elucidativos para a biographia do cosmographo, rectificando erros, e ampliando-a com noticias saccadas dos processos do Santo Officio. Tambem valiosos repositorios de elementos para conhecer a vida e obras de Pedro Nunes são os dois opusculos publicados pelo distincto academico Rodolpho Guimarães, e os artigos do General Brito Rebello.

Não nos adeantam, porém muito estes trabalhos acerca da filha famosa do cosmographo, e da sua ruidoza aventura.

Ainda assim os processos da Inquisição com os depoimentos dos sobrinhos-netos, e de varias testemunhas encaminham-nos o espirito em conjecturas provaveis.


Envelhecia docemente em Coimbra, onde definitivamente estabelecera residencia, n’umas casas da Calçada, (provavelmente entre o Convento de Santa Cruz e a congosta que subia pelo Arco de Almedina,) o velho professor estimado por uns, venerado por outros, discutido por alguns que lhe contestavam os acertos scientificos e invejado por muitos, pois, além da gloria que o aureolava, attribuiam-lhe bens de fortuna.

A mulher, D. Guiomar de Areas, uma hespanhola de que se namorara quando em 1523 (tinha então 21 annos) lia em Salamanca uma cadeira de mathematica, morrera havia tempo deixando-lhe algumas filhas e dois filhos. Estes foram para a India. As meninas, umas iam casando, as outras faziam por isso. Um alvará do começo do reinado de D. Sebastião estabelecia que: «havendo respeito aos serviços que o Doutor Pedro Nunes meu cosmographo-mór, tem feito a El-Rei meu senhor hei por bem de lhe fazer mercê para a pessoa que casar com uma de suas filhas do officio de contador de Elvas»... Facil foi por isso á mais velha D. Briolanja casar em 1566 com Manoel da Gama Lobo que recebeu em dote aquelle officio depois transformado n’uma tença de 50.000 reaes.

D. Francisca, a segunda, foi professar á Lorvão, e alli morreu freira.

D. Guiomar, que acompanhava seu pae, deixou-se galantear por um rapaz pertencente a familia distincta da terra, um tal Heitor de Sá, de quem nada mais se sabe alem da proeza que vamos referir.

Devia a rapariga ser formosa. Assim o attestam as poesias que lhe chamam bella dama, o que não custa a crer imaginando um perfil hebraico, temperado pela graça castelhana.