Mas não antecipemos.


Tivesse ou não suspeita dos avisos do mestre, fundados no zelo pelo seu serviço, e amor pela sua pessoa, El-Rei D. Sebastião demonstrou-lhe sempre affecto e consideração.

Em 1572 manda-o vir de Coimbra, onde residia, já jubilado, para o ouvir acerca do projecto que então affagava de reformar os pesos e medidas do Reino.

Eram frequentes as vindas a Lisboa de Pedro Nunes, pois, por occasião das partidas das frotas para o Ultramar, era reclamado o seu saber para superintender nos aprestos scientificos das náos, e para instruir os pilotos, e orientar os navegadores, cabendo-lhe assim um farto quinhão da gloria d’aquelles, que contribuiram para a grandeza d’este torrãozinho lusitano, e para facilitar a empreza dos seus habitantes na derrota heroica iniciada pelo Infante D. Henrique.

Outra especie de gloria estava ainda reservada para o genial cosmographo.

Além de ser mestre do padre Clavio, denominado o Euclides do seculo XVI, reformador do kalendario romano, que tem o nome de gregoriano, teve como discipulo um vulto que excede todos.

Indirectamente, por meio das suas obras, se não por alguma communicação directa, que desconhecemos, Pedro Nunes foi o mestre de Camões, e com elle collaborou nos Lusiadas.

Poeta elle proprio, não nos seus versos, que são mediocres, mas no vôo de aguia com que a sua imaginação atravessou os espaços e pairou nas regiões sidereas, fluctuando na grande machina do mundo entre as nove espheras, o cosmographo, reformador de toda a sciencia astronomica do seu tempo, impressionou a alma lyrica do grande poeta, que, nas suas obras, colheu noções acerca dos céos que rodeiam a terra, das estrellas, dos astros, dos planetas e dos movimentos dos corpos, que povoam os espaços celestes.

As theorias do astronomo, fundindo-se no cadinho cerebral do épico, transformam-se nos mais formosos decassylabos com que, em lingua humana, um poeta póde fallar dos phenomenos da natureza, assimilando o rigor da sciencia e a harmonia d’um lyrismo cheio de pittoresco.