Cento e trinta e cinco annos antes, mestre Guedelha, um astrologo tambem, fizera prophecia semelhante a El-Rei D. Duarte, assegurando-lhe que Jupiter ia retrogrado e o Sol decahido. Então, como agora, o aviso fôra desattendido.

A Rainha D. Catharina agradecendo o zelo do cosmographo-mór, declarou-lhe que já estava tudo preparado para o dia de S. Sebastião; que o Cardeal julgaria ridicula a causa do addiamento e que era melhor encommendar o negocio a Deus, guardando em segredo o que lhe tinha communicado.

Pedro Nunes atalhou dizendo:

—«Até essa razão tinha eu por tam certa que estive para o dizer a Vossa Alteza antes de lha ouvir; e assim vejo que são inevitaveis os trabalhos d’este Reyno da parte dos quaes Vossa Alteza será testemunha ainda que não dou remate d’elles.»

Dá-nos este dialogo uma impressão inesperada, porquanto (circumstancia curiosa!) é a Rainha viuva, orphã de todos os filhos, com a alma retalhada por tantos desfortunios, e com o espirito sempre alvoroçado pelo temperamento do seu fogoso neto; é a velhinha que a desventura parecia dever predispôr para acceitar todos os vaticinios e presagios dados por essa sciencia ainda então respeitada e temida, que affasta o prognostico agourento, e é o sabio com a intelligencia habituada ás demonstrações rigorosas e positivas que attende ás indicações mysteriosas dadas pela conjugação dos astros.

É que a infelicitada Rainha encommendava «todo o negocio a Deus, em cuja mão estavam os bons successos» e o astrologo, cosmographo-mór, que se julgára obrigado a «levantar figura recorrendo á parte da Mathematica que julga dos successos futuros» entendia que, embora tudo estivesse dependente da Vontade de Deus, deviam respeitar-se as causas segundas.

E quem sabe, se ainda um dia a sciencia, no seu caminhar, não dará razão a mestre Guedelha e ao Dr. Pedro Nunes!

Vaticinios, agouros, presagios, horoscopos, vôos d’aves, sentenças de pythonizas, threnos de prophetas, prognosticos de astrologos, formam um cortejo de tentativas para conhecer a acção futura das forças mysteriosas da natureza, actuando sobre os destinos humanos. E tambem infinda é a serie de esforços empregados para conjurar os maleficios de entes sobrenaturaes. Amuletos, sacrificios a divindades hostis, mãos de finado, varas de condão, figas de osso, cordas de enforcado; e os segredos da magia branca, da negra, bem como de todas as sciencias occultas desde a nigromancia á cabala; os dictames da astrologia contra a conjuncção dos astros; os exorcismos da Egreja contra as bruxas, duendes, lobishomens, vampiros, diabos, ou contra as desgraças annunciadas pelo piar das corujas e o uivar dos cães; tudo isso que os espiritos fortes englobaram na palavra superstição, e que é como que um presentir de leis ignoradas pela intelligencia limitadissima do homem, na perpetua ancia de descobrir meios de defender a sua miserrima fraqueza contra o poder dos perigos que o rodeiam, tudo isso occupou durante seculos, e continúa a occupar (ai de nós!) o fragil cerebro da humanidade.

Pedro Nunes, annunciando á Rainha D. Catharina desgraças para o reinado do neto, é bem o sabio do seu tempo—crente em Deus e na astrologia, mas já levemente sceptico, não confiando muito n’essa sciencia tanta vez fallivel, e comtudo (concebivel contradicção) receiando, ainda assim, ver cumpridos os prenuncios sinistros.

Quem sabe se recolhendo n’esse dia a casa, e topando com a sua Guiomarzita, ainda então pequena, não encontraria na conjuncção dos astros motivo para a apertar mais soffregamente contra o peito, com receio de vir a perdel-a?...