Todos os olhos se voltaram para ella interrogativos. Em alguns apontava a ironia, n’outros o desdem, em muitos commiseração.
Então, a pallidez da sua physionomia tornou-se mais livida, o olhar mais negro, e n’aquella alma de hespanhola, fermentada pelos rancores de israelita, levantou-se impetuosa uma onda de indignação e de odio.
Tremeram-lhe as mãos esguias com instinctivo furor. A direita, encontrando ao alcance o canivete do estojo, que lhe pendia da cinta, levantou-se ameaçadora e antes que alguem pudesse suspender-lhe o gesto, a enfurecida rapariga, com segurança de punho, retalhou o rosto do perfido com uma funda cutilada.
Impellido pela agudeza da dôr e pela perturbação que lhe causava o borbotár do sangue da ferida hiante, o malfadado heroe arrancou da espada e arremetteu contra D. Guiomar.
Mas, ou porque a vista turvada o não deixasse bem enxergal-a, ou porque um resto de cavalheirismo o impedisse de commetter outra cobardia, descarregou a espadeirada sobre uma columna da egreja.
A este tempo, já D. Guiomar cahira de joelhos perante o altar, pedindo perdão a Deus pelo sacrilegio commettido, e ao Bispo pelo desacato e escandalo que causara.
É facil de imaginar o sentimento de estupor que nos primeiros momentos se apoderou da assembléa e o borborinho que lhe succedeu.
Os parciaes dos Sás reclamavam energicamente a punição da culpada.
Os animos iam levedando de fórma que ameaçavam tumultos.
O Bispo atalhou promptamente, ordenando que D. Guiomar fosse levada para o Aljube, onde permaneceu. Mas não se contentava a familia de Heitor com tanta benignidade. Exigiam castigo mais severo. E não o obtendo recorreram aos tribunaes, moveram influencias, e conseguiram que da Côrte viesse um magistrado com provisões, em vista das quaes a desditosa Guiomar foi removida para o Castello.