Resentido com esta affronta, o Bispo D. Manoel de Menezes, escreveu a El-Rei, e como que para affirmar a sua auctoridade e interessar mais profundamente aquillo a que hoje chamariamos a opinião publica, lançou sobre a cidade um interdicto cujo effeito era: cessatio a divinis, expediente bem doloroso para a população, que durante trez ou quatro mezes esteve privada de soccorros espirituaes, e por isso em permanente excitação de animos.

Entretanto, mandava retirar da masmorra a prisioneira, e tornava a fazel-a conduzir para a Aljube, carcere menos duro que o do Castello.

Grande alarido dos Sás, que chegaram a fazer correr insidiosas suspeitas ácerca dos motivos por que o Bispo favorecia D. Guiomar.

O velho cosmographo consumia-se de desgosto. A sua nomeada corria agora mundo, entrançada com o apimentado escandalo.

Pasto das linguas chilreadoras, o caso foi aproveitado pelos poetas palreiros, que logo começaram a mettel-o nos seus villancetes, chacotas e canções.

Pela calada das noites luarentas ouvia-se por vezes a voz d’um estudante, acompanhada pela viola, entoar:

«Senhora Dona Guiomar,
Moradora na Calçada,
Que destes a cutilada,
Senhora Dona Guiomar
Que moraveis na Calçada,
Mereceis tença d’el-Rei
Pois destes a cutilada».

e outra voz respondia:

«Foi mui grande o valor d’ella
E pouca a vergonha d’elle
Mas se ella ficou sem elle
Elle não ficou sem ella».