«E como veiu á tenda e foi desarmado disse a aquelles que eram presentes:
—«Por certo eu sou ferido d’herva.»
E os outros dizendo que não, elle aprofiando que sim, foram-n’o dizer a El-Rei, ao qual pezou muito d’esto, e veiu logo alli por lhe tirar tal imaginação esforçando-o que não era nada, respondeu elle e disse:
—«Senhor, eu ouvi sempre dizer que aquelle que ferem com herva, que lhe formeguejam os beiços, e a mim parece que quantas formigas no mundo ha, que todas as tenho em elles.»
—«Pois assim é, disse El-Rei, bebei logo da ourina, que é mui proveitosa para esto.»
Elle disse que não beberia por cousa que fosse; El-Rei afincando-o todavia, e elle dizendo que não, como mavioso senhor, com desejo de sua saude, por lhe mostrar que não houvesse nojo, gostou da ourina e disse contra elle:
—«E como não bebereis vós do que eu bebo?»
Elle não o quiz fazer por quanto lhe dizer poderam.
El-Rei vinha-o vêr cada dia duas e tres vezes, e ao terceiro dia estando com elle fallando, dizendo-lhe muitas razões de esforço, elle disse contra El-Rei:
—«Senhor, eu vos tenho em grande mercê vossas palavras e visitação, mas entendo que em mim não ha senão morte...»