«El-Rei como ouviu isto, voltou as costas e sahiu da tenda com os olhos nadando em lagrimas... e logo esse dia fez seu acabamento, de cuja morte El-Rei e o Duque e todos os do arraial tomaram grande nojo e tristeza...»
Poderá a nota naturalista da anecdota, no que se refere á pharmacopêa medieval, provocar um sorriso de leve enjôo a alguma leitora menos affeita á pratica das rudes tisanas emborcadas por nossos avós.
Mas ninguem se furtará a uma enternecida admiração, sentindo a grandeza da scena.
Na barraca de campanha armada em terra inimiga jazia o bravo batalhador moribundo, padecendo horrores, com os tormentos causados pela lança que os toxicos violentos do strophantus ou da digitallis, haviam envenenado, e conhecendo estoicamente os symptomas precursores da morte.
Junto ao catre improvisado, e de entre os companheiros de armas, destacava-se D. João I, camarada nas pelejas e nos triumphos, com as lagrimas bailando-lhe nos olhos, inquieto, ancioso, commovido a ponto de não hesitar na prova do repugnante medicamento, que preconizava como infallivel.
Elle ás vezes tão duro, que fazia lembrar seu justiceiro pae, n’aquelle lance deixava humanamente revelarem-se requintes de sensibilidade.
Era esse punhado de heroes, cujos animos abrigavam não só as qualidades brutaes e violentas, que levam á victoria, mas as delicadas dedicações e devotadas amizades promptas para o sacrificio, que fazia exclamar o Duque de Lancastre quando presenceava as suas façanhas:
—«Oh! que bom Portugal!
—«Oh! que bons Portuguezes!»