O caso era embaraçoso. Resolveu-o a animosa rapariga por uma fórma original.
Estava-se nas proximidades da Semana Santa, que em Santa Clara era celebrada com solemnidades pomposas. As tochas de cêra e os pannos para realizar os officios religiosos, eram conduzidos para aquelle convento em grandes canastras, ás costas de homens.
A valorosa aspirante a noviça, de concerto com as freiras, mandou ir ao Aljube um d’esses moços com o seu canastrão, e n’elle se acommodou, como tocha do cereeiro.
O trajecto não era longo, e o carregador foi escolhido entre os possantes.
Seguiu elle caminho com a sua carga pela Calçada, em direcção á margem esquerda do rio, onde estava situado o Convento de Santa Clara (hoje em ruinas).
Proximo á Portagem, e mais adiante, n’aquelle alargar dos peitoris, em circulo, a que chamavam o O da ponte, numerosos grupos em fallatorio ruidoso dispunham-se a atacar o cortejo que, suppunham, havia de conduzir a prisioneira.
Entretanto, o carregador caminhava, não sem inquietação, receiando que os discolos, descobrindo o embuste, o atacassem.
Lá de dentro do seu escondedouro, a destemida Guiomar animava-o, exhortando-o a proseguir.
«Que nada temesse (dizia baixinho), porque Deus, a quem ia servir, os guardaria.»
Em volta o tumulto ia crescendo. Homens armados dispunham-se a atacar os que provavelmente viriam guardando a protegida do Bispo.