Previa-se rixa bravia. E emquanto as bravatas ameaçadoras recrudesciam, e se cruzavam no ar imprecações violentas, a voz doce de D. Guiomar, despercebida dos energumenos, acompanhava n’um rythmo suave os passos cadenciados do seu rude salvador.
Finalmente, chegaram ao Mosteiro!
A madre rodeira, prevenida, correu a aldraba, entreabriu meia porta que, passado o homem com a sua canastra, se fechou sobre o batente, emquanto o ganhão se sumia nas sombras da crasta, onde depositou o precioso fardo.
Estava salva a filha do cosmographo!
A historia é muda sobre a sua vida conventual.
Cá fóra, porém, as paixões humanas continuaram agitando-se em volta do seu nome.
Pedro Nunes, alquebrado pela edade, roido de maguas, e talvez com saudades da filha, deixou-se morrer pouco depois.
Os Sás não abrandaram na sua sanha, e continuaram a calumniosa tarefa, distingindo peçonha sobre a reputação do Bispo, conforme consta de umas notas marginaes postas n’um exemplar do livro—Descripção de Portugal—, que existia na livraria dos Condes de Vimieiro e em que se dizia: «Esta obra toda foi feita pelo Bispo D. Manuel de Menezes, não sei se a canastra, mas sei que foi levada á conta e cargo do Bispo, cuja irmã era abbadessa.»
Uma tal Maria Barreira, no depoimento do processo intentado em 1624 contra os netos do cosmographo, que eram accusados de judaisar, accentúa mais e diz: «quando de sua casa D. Guiomar fora a perguntas á egreja, e depois da cutilada, os Sás se juntaram e insultaram o Bispo D. Manuel de Menezes, entendendo que elle favorecia a dita D. Guiomar.»
N’esse curioso processo, sente-se palpavel o odio dos Sás, sedentos de vingança por o seu parente ter apanhado pelas queixadas (palavras de uma testemunha) a celebre cutilada e vão n’um bando, como gibelinos contra guelfos, perseguindo os sobrinhos de D. Guiomar...