—E depois d’essa comedia, nem cá pôz os pés, atalhou uma velha embiocada, com o seu matéo de briche, que vendia padinhas, n’uma cabana ambulante. Ainda me lembra de quando eu era rapariga, e tinha bastas vezes o bom dia de vêr passar n’esta rua o Senhor Rei D. Sebastião, muito galhardo... com o seu prepõem de velludo... n’um cavallo com freio e estribos de ouro... e os fidalgos atraz muito luzidos...

Agora já não ha côrte e está muito syncopada a galanteria. Tempos que já lá vão!

—E que hão de voltar! retorquiu um velhote de gabinardo cinzento, com olhar de iniciado. Annunciam-n’o as prophecias. Lá o diz o sapateiro de Trancoso...

Os mercadores abastados, vendo o caminho em que enveredava a conversa, entreolharam-se receiosos, não fossem os esbirros denuncial-os. E desviando o curso aos commentarios, o mercador de sêdas apressou-se a informar:

—Os Inglezes vão levantar no Pelourinho Velho um arco magestoso, que os officiaes de bandeira de S. Jorge tencionam ornamentar ricamente.

—Aqui na rua Nova, que é a mais bella da cidade, (basofiou um homem de alentado corpanzil, com pronuncia extrangeira, que ouvira silencioso a ementa dos festejos), nós, os Flamengos, para mostrarmos quem somos, vamos construir, todo de madeira e lona, um edificio de cento e vinte pés de altura e sessenta de largura, com columnas e pedestaes para dezesete estatuas, e um frontão que ha de fazer morderem-se de inveja os Italianos, que dizem ir adornar á sua custa as portas da Sé...

—Parece que a festa mais galante (aventou o loquaz negociante de estofos) entre todas as momarias que se projectam, será no dia do juramento do Principe herdeiro a representação de uma peça, que o Senado da Camara escolheu para solemnizar esse acontecimento. Dizem que entre muitas, foi escolhida a comedia de uma menina de dezoito annos apenas, que é muito sabedora d’isto de versos e que ha de vir a hombrear com o grande Quevedo...

—D. Francisco? interrogou com intenção um hespanhol, mestre de manicordio e de orgão, o que está escrevendo a Historia del Gran Tacaño...

—Qual D. Francisco (replicou o Portuguez), Vasco Mousinho de Quevedo auctor de Affonso, o Africano, natural alli de Setubal. Que nós Portuguezes em poetas, como em tudo, não ficamos abaixo dos hespanhoes...

—Essa tal menina (disse então com ares de alviçareiro o mercador de especiarias) que por signal é muito formosa, ainda hontem a vi aqui passar quando ia, grave e sisuda, acompanhada de seus paes, o Sr. Manoel da Silveira Montesino e a Sr.ᵃ D. Helena Franco, que moram alli perto da Sé, dar licção de harpa e de canto. Tão dotada de engenho é ella, que a sua comedia, ou auto, ou lá que é, foi a preferida para ser representada na presença de El-Rei e da Côrte.