«El amor soy, que he llegado
A tal pobreza, que pido
Por sustentar mi decoro
Limosna como mendigo.
Hay quien quiera limosna
Dar al dios Cupido?»
Outras houve poetizas de talento, na mesma quadra, como D. Leonor de Menezes, Condessa de Atouguia, auctora da novella El desdeñado mas firme; Maria de Mesquita Pimentel, que escreveu o Triumpho do Divino Amor; D. Marianna de Luna (grande amiga de Violante) que compoz o Ramilhete de Flores; Izabel Corrêa, que, por motivos religiosos, se ausentou para Hollanda, onde publicou El Pastor Fido, e mais outras ainda, que o Padre Antonio dos Reis celebra no seu Enthusiasmus Poeticus, e que formam a brilhante pleiade, onde é astro de primeira grandeza Violante do Céo.
Corria o anno de 1619 e Lisboa preparava-se para receber com festejos pomposos Filippe III, o pallido filho do Diabo do Meio Dia, que parecia afinal ter-se decidido a realizar a promessa, feita havia dez annos, de visitar a capital de Portugal.
Projectava-se armar nas ruas arcos festivos e porticos imponentes; erigir sobre pedestaes vistosos estatuas e figuras symbolicas; entoldar as ruas e adornar as janellas com preciosas colgaduras; desfraldar galhardetes nos innumeros mastaréos; fazer jorrar agua de rosas das fontes improvizadas; e construir estrados e palanques nos sitios onde deveria passar o cortejo.
A cidade de Lisboa, apesar da mingoa do Thesouro, deliberára dar ao Rei duzentos mil cruzados para a sua jornada, afóra as avultadas quantias destinadas aos festejos.
De porta para porta, na Rua Nova, os mercadores nacionaes ou extrangeiros—os ataqueiros, que faziam atacas, os roupavelheyros, os relojoeiros de sol, os confeiteiros, os vendedores de porcelanas e outras cousas da India, e os que vendiam crystaes de Veneza—commentavam os preparativos ao sabor das predilecções.
—Decidiu-se finalmente Sua Magestade Catholica a visitar este seu burgo, dizia com pouco dissimulada malquerença, um algibebe remedeiado a um seu vizinho, rico mercador de sedas, velludos, damascos e tafetás. Mas para se metter a caminho carece das ajudas d’esta cidade e das villas que vae atravessando.
—E muito devemos agradecer á Providencia respondia o interpellado, senão succeder como ha alguns annos, quando o fallecido Marquez de Castello Rodrigo (que o inferno queime!) fingindo ceder ás reclamações dos povos, aconselhava o seu amo, que anda sempre em viagens de recreio, a alongar uma até cá. No fim de contas...
—No fim de contas, commentava um vendedor de especiarias, que voltava da Ribeira, El-Rei exigia cem mil cruzados, só á capital, para fazer a viagem, e, deitando poeira aos olhos do povo, mandou chamar galés e soldados de Italia para lhe fazerem acompanhamento.