«Nem instrumento, nem flôr, Pois nenhum me ha de tocar. Pois nenhum me ha de colher.»
E realmente pouco depois, mordida por despeito amoroso, que transparece em alguns dos seus versos, encerra-se, sem que uma vocação violenta a arraste, n’um claustro onde vae emmurchecendo e definhando, como flôr nunca colhida, e como instrumento—que jámais fosse tangido por mão de homem.
Quem é a esquiva versejadora, que assim se defende dos madrigaes com que a incensam?
Violante Montesino, se chamou no mundo aquella que foi uma das mais caracteristicas individualidades litterarias d’esse seculo XVII, tão desdenhado pela critica moderna, mas tão rico de cultivadores da nossa lingua.
Entre aquelles que, no seiscentismo portuguez, levaram o idioma patrio á perfeição pelo culto da palavra, e que melhor sentiram o genio da lingua, manejando-a com uma technica nunca até ahi attingida, nem depois excedida; e junto áquelles que escreveram o castelhano com tal perfeição que se tornaram classicos em Hespanha, figurou n’um relevo precioso a personalidade de Violante do Céo, com as suas «Rythmas», os seus «Soliloquios», e com o Parnaso Lusitano.
E não é pouco ser alguem a escrever, n’esse período em que Rodrigues Lobo dá á phrase uma suavidade que emballa o ouvido, e Antonio Vieira arredonda os periodos, enriquecendo-os com a rebuscada propriedade dos termos; em que D. Francisco Manoel de Mello usa, na concisão da sua prosa, uma elegancia e elasticidade, que encanta ainda o leitor d’hoje; e em que Manoel Bernardes põe notas ineditas na harmonia da sua linguagem opulenta. Nem tão pouco é facil, (como a ella foi,) destacar-se no verso entre os que mais engenhosamente fizeram sujeitar o fogo da inspiração ás exigencias do metro e da rima, jogando com hyperboles e outros artificios de que usaram Gabriel Pereira de Castro, estofando de synonimias e locuções abundantes a famosa «Ulyssêa»; e D. Bernarda Ferreira de Lacerda gemendo e cantando com rigor vernaculo as suas «Soledades do Buçaco»; e D. Joanna, Condessa da Ericeira, philosophando em oitavas nebulosas no «Despertador del Alma al sueño de la vida» e tantos mais, não esquecendo duas freirinhas do aristocratico convento da Esperança que, embora hoje quasi ignoradas, poetavam com muito valor, ao mesmo tempo que Violante. Tem qualquer d’ellas duas tanta graça no dizer e tanta frescura no estylo, que bem mereceram o piedoso gesto com que o Dr. Mendes dos Remedios as evocou n’uma recente collectanea, dando á estampa algumas das suas poesias.
De Maria do Céo, filha de Antonio de Eça de Castro e de Catharina de Tavora, resta-nos, além de outras obras, a Preciosa, em que revela uma inspiração nascida, não só de cogitações divinas, mas de graciosa feição mundanal, como transparece n’aquela deliciosa egloga, que Rodrigues Lobo não regeitaria. e que diz assim:
Montanheza que foste á fonte
Como suspeito,
Que trouxeste agua nos olhos
Fogo no peito.
Quem te trocou no caminho,
Serrana dos olhos negros?
Pois te conheço só hoje
Pelo que te desconheço?
Como suspeito,
Que encontraste teus cuidados
A roubar-te taes assocegos?
E a outra, Magdalena da Gloria, ou antes Leonarda Gil da Gama, como realmente se chamava, nascida n’um refego da Serra de Cintra, que nos seus Brados do Desengano trata o amor com tal sanha, que mais parece vingança de coração dolorido, que precaução contra os perigos que d’elle provêem. Assim, n’uma composição que intitula o Baile e em que entram como figuras:—o Amor—duas Damas—o Apetite—dois galantes, faz aparecer o Amor, vestido de pobre, encostado a uma aljava e resmungando: