Chegando a Almada ficou deslumbrado com o panorama do Tejo e o doce espreguiçar de Lisboa nas suas sete collinas. Mas quando á noite via o luzir dos fogareus com que os operarios se alumiavam para ultimar os preparativos, ou dos archotes que acompanhavam o coche de algum nobre, logo lhe assaltava o animo um enxame de presentimentos e agouros.

Resolveu deter-se no Convento dos Jeronymos em Belem, antes de fazer a entrada solemne em Lisboa. Alli se demorou um mez esperando as galés de Hespanha que por precaução o haviam de acompanhar pelo Tejo, desde o Restello até á ponte dos Mercadores, junto ao Paço de Ribeira.

Foi um cortejo luzido. Doze galés e mais dois mil baixeis ornamentados seguiam a galeota real á qual Neptuno sahiu ao encontro tirado em um carro marinho por quatro phocas, e acompanhado de tritões montados em baleias, espadartes e crustaceos enormes. O Deus dos Mares, depois de dar ao monarcha as boas vindas, encorporou-se no sequito. Na ponte, D. Filippe foi acolhido delirantemente pela população da cidade em festa.

Portugal n’esse momento acreditava, ou diligenciava acreditar, que o Rei, de boa fé, vinha tentar uma solução que salvaguardasse os brios nacionaes...

Ficaria o moço Principe Rei de um Portugal independente?

N’essa esperança abriam-se sorrisos, desfraldavam-se bandeiras, ostentavam-se galas nos vestidos, faziam-se brilhar ao sol as pedrarias,—trazidas do Oriente—rubis brilhantes, esmeraldas rutilando em collares, em gargantilhas, em copos de espadas, e nos cabellos das bellas portuguezas.

Filippe, ligeiramente curvado, e tendo no olhar aquella sombra de desconfiança, que herdara do pae, atravessou a cidade n’um deslumbramento. Quando ao cahir da noite fez a sua entrada nos Paços da Ribeira, entre cincoenta moços de Camara que, empunhando tochas accesas allumiavam a larga escadaria, e que, precedido pelas trez guardas reaes dos archeiros, subia levado na magnificencia do triunpho ao som dos instrumentos e vozes que entoavam em côro, exclamou já socegado de animo e convencido da sinceridade do acolhimento jubiloso—«Só neste dia sei que sou verdadeiramente Rei».

E dando largas a um bom humor, que não era habitual, passou os dias seguintes desfructando os desfastios espectaculosos que lhe offereciam as danças dos padeiros e collareos, as folias, e as chacotas populares, e outros festejos, que lhe davam a illusão do amor de um povo agradecido. E agradecidos estavam effectivamente aquelles que o acclamavam, jubilosos por sobre elles ter feito cahir uma chuva de vinte mil cruzados, e os que aproveitavam com a suspensão, por trez dias, dos direitos do consumo de peixe na cidade.

Em 14 de Julho na sala grande do Paço da Ribeira, celebrou-se a ceremonia do juramento do Principe.

Foi então n’essa noite ou n’uma das que se lhe seguiram que o Senado offereceu a representação de uma peça theatral composta pela poetisa Violante Montesino, cuja mocidade, formosura e talento precoce despertavam a mais viva curiosidade.