Além do exito que obteve, e esse foi grande, não ficou outro vestigio d’essa producção litteraria.

Sobre o proprio titulo e assumpto os auctores discordam. Emquanto Barbosa Machado na Bibliotheca Lusitana e Garcia Perez no Catalogo Razonado se referem a esta peça theatral, chamando-lhe Santa Engracia, outros, como Costa e Silva no Ensaio biographico e critico dizem: «Contava esta poetisa apenas dezoito annos de idade quando compoz a comedia Santa Eugenia, que foi representada com grande apparato na presença de Filippe III quando este visitou Lisboa em 1619.»

Fosse, porém, heroina do drama Santa Eugenia, abbadessa na Alsacia, ou como de preferencia crêmos, Santa Engracia virgem e martyr, natural de Braga que, com o peito rasgado e o coração ás escancaras, ainda clamava a sua fé em Christo, o certo é que o exito da linda musa lusitana foi retumbante, mettendo na sombra uma tragicomedia de grande apparelho theatral posta em scena pelos jesuitas, com esplendor extraordinario, em honra de Filippe com o titulo de: Descoberta e conquista da India.

Para nos descerrarem um pouco as cortinas da sala em que se realisou a representação do drama de Violante, faltam-nos os registos da palrice mundana, que modernamente as gazetas fornecem aos leitores, curiosos de conhecer o movimento da gente elegante a que se chama—a Sociedade.

Carecemos de um jornal d’esse tempo para procurarmos n’aquelle cantinho em que a leitora actual, cada manhã ou cada tarde, procura anciosa quem faz annos, quem dançou no baile, ou quem recitou no saráo de arte; os que vão casar e os que estão doentes; quem partiu e quem chegou; como vestiam as dirigentes da moda, e quem concorreu ás reuniões da tafularia, falta-nos essa tagarelice informadora, de que alguns sorriem e que todos lêem, para sabermos como a côrte do soberano hespanhol acolheu a peça da poetisa portugueza, e para buscarmos os nomes dos que compunham o auditorio brilhante.

O que sabemos é que todos á uma applaudiram o nascente talento d’aquella a que desde logo ficaram chamando «Fenix de los ingenios lusitanos».

Violante conheceu então a deliciosa embriaguez do triumpho. Pelo prestigio da sua formosura, pelo poder do seu engenho, pela graça da sua mocidade encantadora, captivou todas as imaginações. Poetas e cortezãos exaltaram-n’a na linguagem alambicada do tempo, e crearam em volta d’ella uma atmosphera de gloria e de adulação, que a envolveu em ondas de incenso lisongeiro.

Ficou consagrada!


Foi provavelmente n’esse periodo da sua existencia que se deu o episodio a que já atraz alludimos, quando com tanta vivacidade respondeu aos versos do Doutor apaixonado.