N’uma d’aquellas reuniões da Lisboa seiscentista que já não eram os saráos da côrte joannina ou manuelina, mas discretas assembléas, rudimentos de academias que então começavam a pullular, n’um desses cenaculos familiares onde as classes já entravam promiscuamente, acorrendo a ellas desembargadores escolhidos na magistratura alitteratada, dignidades ecclesiasticas decorativas ou eruditas, e membros da alta burguezia, á qual pertencia a familia de Violante, certo Doutor recitou-lhe uns versos em que, invocando o seu nome, a comparava ás violetas e ás violas.

Ella, repentista e manejando com facilidade a decima (forma de estrophe muito usada no versejar de então), repelliu o intencional trocadilho, retorquindo:

«Contradizer hum Doutor
Nem sei que he temeridade,
Porém com huma verdade
Quero pagar um louvor.
Nem instrumento nem flor
Sou, porém se o posso ser
Ninguem trate de emprehender
O que não ha de alcançar,
Pois nenhum me ha de tocar
Pois nenhum me ha de colher.

Por que não acceitou ella o galanteio do legisperito?

E porque se mostrava assim esquiva?

A este tempo já teria sentido de certo a alma invadida por aquella paixão amorosa, que lhe trouxe na vida tempestade tão grande, que a ella deveu talvez a resolução decisiva da sua existencia.

Conforme alguem já notou, nos proprios versos da celebre poetisa se póde seguir o fio do seu romance sentimental, tanto quanto é possivel procurar vestigios de coração entre as selvas do cultismo, dos arrebiques litterarios, dos trocadilhos, impostos pelo gosto da moda.

Áquelle que lhe tinha prendido os sentidos chama ella Silvano, certamente um véu cryptonimico em que esconde o nome do homem de que chora a ausencia, a quem exproba pelas infidelidades, de quem tenta vingar-se, e por causa de quem abandona o mundo.

Não transcrevemos das suas poesias, (muitas das quaes aliás se lêm na integra com prazer) senão o que fôr guia para nos esclarecer um pouco ácerca da sua biographia e da vida do seu coração. E assim, da Ode que foi escripta por ventura logo depois da partida do seu escolhido, só copiaremos as primeiras estrophes, que são documentos caracteristicos da casuistica amorosa de uma portugueza sentimental.

Diz ella: