«Amante pensamento
Nuncio de amor, terceiro de vontade;
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade;
Ministro da Lembrança.
Gosto na posse, allivio na esperança,
Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Dize-lhe que me deixas,
Dize-lhe que estou morta mas sentindo,
Que póde mal tão forte
Fazer que sinta, ái triste, a mesma morte.
Dize-lhe que é já tanto
O pesar de me vêr tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de uma vida
Tão morta para o gosto
Como viva, ái de mim para o desgosto.»

Seguem-se mais algumas estrophes, que são variantes do mesmo thema, cuja substancia são os trez versos seguintes

«Pois para quem padece o mal d’ausente
Que he só remedio entendo
Ver o que quer, ou fenecer querendo.»

N’este primeiro periodo da sua paixão quasi todos os versos são fabricados com a idéa exclusiva da morte causada por sentir saudades; da vida consagrada a padecer por ellas.

O soneto seguinte, todo dedicado ao ausente querido revela na intencional pobreza de rimas (só usa de duas palavras) o proposito de tornar bem patente o seu modo de sentir.

É como se nos abrisse o peito, para que possâmos devassar o mechanismo do seu coração, e as subtilezas da sua psychologia amorosa.

Se, apartada do corpo a doce vida
Domina em seu lugar a dura morte;
De que nasce tardar-me tanto a morte,
Se ausente d’alma estou que me dá vida?
Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.
Ah suspirado ausente! se esta morte
Não te obriga a querer vir dar-me vida,
Como não m’a vem dar a mesma morte?
Mas se n’alma consiste a propria vida
Bem sei que se me tarda tanto a morte
He porque sinto a morte de tal vida!

Não tome o leitor este soneto como um modelo, nem como specimen da arte poetica da escriptora.

Veja n’elle apenas um testemunho interessante, uma especie de thermometro collocado na axilla da lisboetazinha de 1620, que, marcando os gráos de exaltação sentimental da musa amorosa, quando, rendida e morta de saudades pela ausencia do amante, deita mão de um artificio litterario em voga n’esse tempo, para confidenciar ao papel o seu tormento.

Quem percorrer os cinco volumes da Fenix Renascida ou as poesias amorosas que Maria da Veiga Tagarro, nos deixou na Laura de Anfriso; quem ler as redondilhas e romances de D. Francisco de Portugal, e todos os gemidos das freiras apaixonadas por Deus ou pelo Mundo, n’esse periodo de convencionalismo litterario, sentirá como aquella geração amava e traduzia o amor em verso. E comprehenderá então como atrás das franjas gongoricas e dos conceitos rebuscados da musa, palpitava vivamente o coração de Violante.