Alli, em frente da jaula d’um formoso specimen do rei dos animaes, emquanto as amas e creadas da visinhança ouviam dengosas os requebros dos soldados, e as borboletas se perseguiam amorosas entre a folhagem, estudou os movimentos do soberbo animal, idealizou-lhe a existencia, e, em seguida, n’uma barraca da feira Neuilly, assistiu attento ás coleras d’um bando de leôas, excitadas pelo chicote de uma domadora que, vestida com maillot, dava tiros de polvora secca, em frente das fauces escancaradas dos bichos truculentos.

Poucas semanas depois tinha escripto um volume faiscante, pulverizado de anecdotas, livro de leitura interessante e facil, que foi devorado por milhares de leitores.

O Inglez comprou um fato de linho, um capacete de cortiça, uma boa carabina de caça, varias obras de viagens, um livro em branco para tirar notas e tomou um bilhete a bordo d’um transatlantico que o levou a um porto da Africa.

D’alli penetrou na Libya, procurando a região onde melhor pudesse observar a vida, os usos, os costumes das soberbas féras em plena natureza. Passou noites no embrenhado das florestas, e nas quebradas dos montes, onde echoam os rugidos dos magestosos animaes, e ouviu os bramidos das fulvas leôas amorosas nas clareiras alumiadas pelo luar africano.

Surprehendeu nos antros o ciume das mães; as luctas sanguinolentas entre os machos com o cio; o esphacelar das victimas colhidas nas caçadas. Elle proprio matou valorosamente, para se defender, medonhos leões, e trouxe exemplares preciosos para o estudo da raça. Ao fim de dez annos, tinha escripto um livro bem documentado, vivido, verdadeiro. Um livro de consulta, um livro de sciencia, um livro de bibliotheca.

O Allemão, esse, limpou os cristaes dos seus oculos de ouro, penetrou na bibliotheca imperial de Berlim, requisitou todas as obras de historia natural escriptas nas seis mil linguas que se fallam no mundo, abancou n’um dos mais reservados cantos da sala de leitura, e começou a ler, tomando apontamentos sobre tudo quanto se tem escripto ácerca do Leão, desde as obras fundamentaes de sabios até ás dissertações phantasistas a respeito do leão alado de S. Marcos nos monumentos de Veneza, não esquecendo as referencias á fabula do immortal Phedro. Ego nominor leo... O Allemão tem lido, lido, lido. Já lá vão vinte annos e juntou notas para outros tantos volumes de uma futura obra colossal!

Occorreu-me ao espirito a anecdota que precede ao ler as duas obras recentes (emquanto não apparece a terceira) inspiradas na personalidade de D. Francisco Manoel. O polygrapho seiscentista não é positivamente um leão. Mas o facto de ter sido agora assumpto de um drama de Ruy Chianca, e de um estudo biographico de Edgar Prestage, trouxe-me a confirmação do caso, que tão bem caracteriza as tres raças.


Francisco Manoel de Mello! A todos os que estudam, ainda que superficialmente, litteratura portugueza, este nome recorda o auctor da «Carta de Guia de Casados», dos «Apologos dialogaes», das «Epanaphoras», o diplomata da Restauração, o prisioneiro da Torre de Belem, e mais ainda o heroe do romanesco duello nas sombras, o supposto rival de D. João IV, e a victima da sua paixão pela Condessa de Villa Nova.

Dados estes elementos tentadores, o espirito meridional do sr. Ruy Chianca, todo vibrante ainda do seu triumpho com o exito de «Aljubarrota», toma o auctor do «Fidalgo Aprendiz», colloca-o em scena, apresentando-o entre personagens, mais de imaginação que de historia, e, dando-o como typo da nobreza de sentimentos da raça portugueza, exalta-o e celebra-o.