«Porque é poeta e nobre audaz e ciumento»

e tambem ainda porque, segundo elle põe na propria bocca do seu heroe:

«Poeta e bom fidalgo á moda portugueza
Bato-me onde é precizo em lidima defeza.
Por que? Pela divisa escripta em minha espada.
Por quem? Por meu amor. Por quem? Por minha amada.»

Não sei se quem não conhecer a individualidade de D. Francisco Manoel, tão complexa, e tão cheia de incertezas e de penumbras na vida do coração; quem não tiver perfeito conhecimento das suas obras litterarias, nas quaes o culteranismo, triumphante n’esse tempo, é tão elegantemente subjugado por um bom gosto artistico, raro nos seus contemporaneos; se quem não tiver lido os cem volumes de que se compõe a opulenta lista das suas obras; se quem não tiver saboreado nos «Apologos dialogaes» a «Visita das Fontes» e os «Relogios fallantes» tão ricos de conceitos, noticias, e bom sal attico; se quem não conhecer as discussões ora eruditas, ora piegas da «Academia dos Generosos»; se quem não tiver compulsado os diccionarios bibliographicos de Barbosa Machado e de Innocencio, e os estudos de Costa e Silva, Alexandre Herculano, e Camillo Castello Branco; não sei, repito, se o espectador que assistir desprevenido ao drama intitulado: «Dom Francisco Manoel» ficará com uma ideia approximada do homem notavel, que se chamou assim. É incontestavel, porém, que a sua attenção será sollicitada com sympathia para as qualidades reaes d’esse attrahente vulto, que o auctor do drama phantaziou galhardamente, e para a nobreza de sentimentos, que caracterizam a sua classe, predicados que são postos em formosos versos, n’um peito genuinamente portuguez. E porventura essa obra de arte, concebida e executada com a impetuosidade de um quasi improviso, n’um jacto de lyrismo, induzirá muitos a irem buscar nas fontes noticias acerca da individualidade do heroe, e a lerem nas obras de investigação o que se tem escripto com relação a esse personagem tão rodeado de interrogações, a esse soldado, diplomata, philosopho e poeta, sobre cuja acção politica a historia falla alto; sobre cujo valor intellectual os seus livros são eloquentes attestados, que perpetuam a sua fama; e cuja existencia sentimental a lenda envolve n’uma atmosphera de mysterio propicia ás hypotheses romanescas.

Em todo o caso é obra digna de ouvir-se agradabilissimamente.

O mais recente estudo, o mais notavel, e o que mais noticias encerra ácerca da vida e obras de D. Francisco Manoel de Mello é o «Ensaio biographico», grosso volume in-8.º, que se deve ao trabalho exegetico do escriptor inglez Edgar Prestage.

Espirito namorado das coisas portuguezas, alma lusitanisada até ao amago, a força de seducção que o levára a trasladar para o seu idioma Azurara na «Chronica do descobrimento e conquista da Guiné»; as «Cartas da Freira portugueza»; e o «Suave Milagre» de Eça de Queiroz, attrahia-o, desde alguns annos, para o vulto que no seculo XVII tão caracteristicamente representa a gente lusa, e que melhor cultiva a sonora e doce lingua de Portugal.

Conservando as qualidades fundamentaes da sua raça, e a segurança dos processos na investigação, o critico inglez entendeu que devia usar o idioma portuguez, tratando de um escriptor cuja linguagem Herculano aponta como modelo de estylo «pelo qual se vê quão rica e bella é esta nossa lingua, que para exprimir affectos não carece de neologismos, nem de enredar-se em archaismos». Prestage resolveu pois fallar d’esse portuguez na lingua portugueza.

O esforço enorme assim realizado pelo critico bilingue não se compara á alternativa facil com que os nossos quinhentistas e seiscentistas empregavam indifferentemente a lingua patria e a castelhana, de que é exemplo o proprio D. Francisco Manoel reputado classico, aqui com os seus «Apologos» e «Carta de Guia de Casados»; lá em Hespanha com o seu «Movimento de Cataluña».

Por isso mesmo é mais para admirar a temeridade do escriptor inglez que, habituado a formular a ideia na simples e regular syntaxe de sua lingua, se aventurou a tratar da vida e obras de um requintado cultista, ligeiramente eivado de gongorismo, e tão avesso na redacção complicada do pensamento á simplicidade ingleza quanto a glotte de um saxonio é rebelde á harmonica e suave musica da dicção portugaleza.