O esforçado escriptor sahiu-se da sua empreza com muita honra, e o seu livro que modestamente baptisou com o nome de «Esboço biographico» é trabalho de grande valor, e está destinado a figurar em todas as bibliothecas de estudiosos de Portugal, do Brazil, da Hespanha e da America latina.
Embora por vezes a construcção da phrase deixe no paladar um resaibo, ou ligeiro travo que indica a sua proveniencia britanica, a redacção sempre clara leva-nos arrastados pelo interesse, atravez dos nove capitulos do livro, confiando plenamente na honestidade da factura, e na segurança dos processos empregados.
Para muitos se afigurará exagero de segurança, tanta é a minuciosidade com que se procura uma data: se discute um facto; se verifica uma lacuna; se averigua a existencia de indicios até agora desprezados; e com que se cata as obras do escriptor para n’ellas ir encontrar elementos biographicos.
Mas nunca é demasiada a investigação em livros d’esta indole, ainda mesmo quando as conclusões sejam de natureza negativa.
É portanto bem para apreciar a paciencia com que o auctor da biographia lê attentamente as obras do escriptor; com que interroga todos os que lhe possam fornecer elementos uteis, com que se corresponde com os directores dos archivos nacionaes e extrangeiros; com que entra nos cartorios das antigas familias que ainda os teem; com que examina os registos de nascimento, casamentos e obitos das parochias de Lisboa; com que percorre as ruas, praças e beccos estreitos, e com que estuda antigas plantas da velha Lisboa do seculo XVII.
Procedendo assim, e a exemplo de Herculano que do «Memorial» dirigido a D. João IV tira dados biographicos, consegue, cotejando textos e analysando documentos, alguns até hoje inéditos, e estudando as «Cartas Familiares», as «Tres Musas del Melodino», as «Epanáphoras», etc., reconstituir a vida do escriptor e, o que é mais difficil, sondar por vezes o seu intimo pensar.
No proseguimento d’esta tarefa apresenta Prestage o problema, ainda hoje insoluvel, dos motivos da paixão de D. Francisco Manoel, e da supposta connexão entre a sua desgraça e a aventura amorosa que, segundo alguns, deu causa ao desagrado regio, e á vingança de um marido.
Esse problema desperta a curiosidade, com a attracção irresistivel do mysterio.
O escrupuloso biographo apresenta-o tal como foi posto pelos seus predecessores, e indica as soluções alvitradas. Deixa ao leitor o decidir-se pela solução, que melhor convenha ao seu espirito. E, se não omitte a sua opinião, tambem não a impõe como dogma.
Ora como o caso é interessante; como os enredos que motivaram a prisão do moço militar formam uma trama emmaranhada, que nunca se desfiou bem, nem durante os doze annos de encarceramento, nem quando regressou do exilio, nem depois da sua morte; e, como nos depoimentos da historia apparece, trazido por mexericos, o echo do testemunho d’um avô meu, (echo, note-se bem, mas não voz propria), redobrei a attenção com que li o livro, e especialmente quando dá conta das versões, com que se tem querido explicar o drama.