No livro de Edgar Prestage são apontadas todas essas versões, desde as notas sisudas e graves de Alexandre Herculano, no «Panorama», até ás phantasiosas noticias publicadas por Camillo Castello Branco, na ancia, com que algum tempo enfermou, de deprimir a Casa de Bragança, e com as quaes pretende desatar todas as duvidas, e alumiar todos os pontos obscuros.
É sabido que D. Francisco Manoel de Mello, descendente por sua mãe do Duque de Bragança, degolado em Evora, e portanto ainda parente de D. João IV, depois de estudar humanidades no Collegio de Santo Antão, com o Padre Balthazar Telles, o historiador da Ethiopia, embarcou aos 16 annos, como aventureiro, na armada commandada por D. Manoel de Menezes, o chronista de D. Sebastião.
Batalhou nos Paizes Baixos; e foi como mestre de campo na armada de Antonio Oquendo contra os Hollandezes do canal da Mancha; militou no exercito do Marquez de los Veles, contra a Catalunha revoltada; e já antes da Restauração de 1640 foi diplomata habil por parte do Duque de Bragança, explicando com astucia em Madrid os tumultos de Evora, que inquietavam o Governo hespanhol.
A sua passagem, na Côrte de Madrid, pelas rodas elegantes, deixou fama. E foi festejada a sua assistencia nos celebradissimos saraus e festins, onde soube usar a arte subtil do cortezanismo, e as amaveis manhas de requintada galanteria.
Corria fama da sua maneira de cortejar as senhoras quando, subindo aos estribos dos côches em que passeavam no Prado, elle as entretinha com motes, que provocavam riso e galhofa; e celebrava-se a sua sciencia de bem dizer e engenho em contar casos, ora narrando as proezas de D. Simão da Silveira, em frente do balcão das damas da Rainha, quando lhes fazia terreiro, ora alludindo á naturalidade com que a Condessa de Lalaim, jantando á mesa de Margarida de Valois, se desabotoára, mostrando o seio, para dar de mamar a um filho que creava. A sua conversação salpicada de dictos, de annexins, de anecdotas, de epigrammas picantes, era saboreada com prazer nas tertulias e seroadas, onde por este conjunto de qualidades mundanas, D. Francisco era apreciado como modelo de verdadeiro cortezão: ao mesmo tempo diplomata habil, militar arrojado e poeta galanteador.
Foi, por isso mesmo, bem acceito das mulheres, debicando com ellas se eram «leves e gloriosas, prezadas do seu parecer» (euphemismo com que se referia ás coquettes, a quem comparava a loureiros, por indicar que a qualquer bafo leve de vento se moviam), e sabendo lisonjeal-as, se eram interessantes, com o aguçar-lhes as qualidades femenis, cultivando assim com pericia «toda a casta de damarias e matronerias». E ao passo que desafiava com malicia o riso das que tinham bons dentes, e aquelle feitio a que chamava «graça na boca e cova na face», requestava as que «traziam castanhetas na algibeira, sabiam jacaras, e entendiam de mudanças de sarambeque, com indicios de desenvolturas.» Tinha além d’isso receitas seguras para lidar com ellas, como revela na «Visita das Fontes» com o aphorismo que diz: «A mulher é como a laranja. Se muito apertada logo amarga. Quer-se levada por bem, mas não pelos cabellos.»
Não lhe perjudicava o exito, e o prestigio, a sua fealdade, se realmente era feio, como parece indicar aquella anecdota, que vem referida n’um codice da Bibliotheca Nacíonal de Lisboa, e que é attribuida ao Conde de S. Lourenço. Diz assim:
«A Senhora Rainha D. Luiza tinha um quarto aonde ella só entrava e muito occultamente ia pôr seu alvaiade e seu carmin de cara. Este quarto tinha por cima da porta ou de uma janella, uma bandeira, á qual muitas vezes, estando a Rainha dentro subia um macaco, por lhe permittir o comprimento da sua cadeia e d’alli observava as operações da mascara.
Quebrou o macaco hum dia a sua cadeia e, pela bandeira da janella ou porta, entrou no gabinete; foi-se logo aos unguentos e appareceu no Paço feito muito galante Dama.