A Rainha, desesperada, mandou matar o macaco, na mesma occasião infelizmente que uma Dama do Paço, prima de D. Francisco Manoel, n’aquella occasião preso de pouco, se foi lançar aos pés da Rainha, banhando-se em lagrimas, a pedir a Real intercessão por seu primo que era assaz homem de um semblante muito feio, talvez tanto como era bello espirito.
A Rainha, em colera, persuadida que a Dama lhe ia pedir pelo macaco, deu-lhe logo a exclusão, prevenindo o peditorio, dizendo-lhe: «Não, não. Não me peças por elle que ha de morrer, porque é muito feio.»
Cahiu a pobre Dama com um accidente, fulminada da injusta sentença da Rainha, que condemnou o innocente animal pelo mesmo delicto em que ella era comprehendida e em que tinha sido a mestra do macaco, que por isso mesmo que era feio, queria fazer-se bonito.»
A anecdota é engraçada, mas não nos assegura a fealdade de D. Francisco.
Este Conde de S. Lourenço, meu avô, a quem, diga-se de passagem, são attribuidas com mais ou menos authenticidade muitas anecdotas, nasceu muito depois da morte de D. Francisco Manoel a quem só conheceu por tradição, e pela leitura das obras d’aquelle a que chamava bello espïrito.
Emquanto á prima que desmaiou aos pés da Rainha, quando foi do mofino equivoco, o seu testemunho é suspeito.
Pois que emquanto com os labios o alcunhava de feio, com o indiscreto desmaio trahia o sentimento que a dominava.
Chamava-se ella D. Maria de Portugal, e foi depois Condessa de Penalva.
Era irmã do Conde da Ponte, Marquez de Sande, e acômpanhou como Dama a Rainha D. Catharina a Inglaterra. Quem sabe se nas vigilias da brumosa ilha, não lhe pairava na imaginação a figura do encarcerado primo, menos disforme que a imagem que apresentára á Rainha D. Luiza.
Camillo Castello Branco, não sei com que fundamento, assegura que elle era «gentil, moço de trinta annos, corajoso e poeta, o primeiro e mais galan de quantos então abrilhantavam os saraus da primeira fidalguia».