E todas estas versões se entrelaçam nas sombras, formando um d’estes enygmas historicos, que tentam dramaturgos e romancistas.
A mais romantica das versões é a que se encontra n’um livro de Linhagens attribuido a Joseph Cabedo de Vasconcellos e Manoel Moniz Castello Branco, versão explorada por Camillo com toda a veia de arte e azedume, que caracteriza o seu modo de escrever.
Segundo elle, D. Francisco, apaixonado pela formosa Condessa de Villa Nova, esperava uma noite, cioso e desconfiado, n’um canto escuro do pateo de um palacio, espaçoso vestibulo, que se chamava o Pateo das Columnas, perto do Limoeiro, quando um vulto se approximou embuçado. D. Francisco perguntou quem era. Não recebendo resposta, desafiou o desconhecido, e cruzaram as espadas.
Ao tilintar do ferro accudiu sobresaltada a Condessa, com uma luz na mão. Os duelistas separaram-se.
Mas o embuçado, que era D. João IV, tambem enfeitiçado pela Condessa, conhecera a voz do rival, que lhe era familiar, e d’ahi a vingança attribuida ao Rei.
Esta versão, que é deprimente para todos os personagens, pois faz da Condessa, além de leviana, dobre e refalsada, de D. Francisco um ciumento ridiculo, do Conde D. Gregorio um inverosimil barba-azul envenenador de trez consortes, que successivamente o enganaram, e de D. João IV um rufião de congostas escusas e um algoz coroado, esta versão, repito, não resiste á critica. Embora houvesse no caso um fermento de amores e ciumes que sempre fazem levedar o folhado dos corações, não foi assim baixo o papel de D. João IV, e o proprio Camillo o confessa n’uma nota correctiva publicada, annos depois da primeira afirmativa, na «Bohemia do Espirito» isentando o Rei da responsabilidade dos infortunios de D. Francisco.
O sisudo e taciturno Costa e Silva no seu «Ensaio bigraphico-critico sobre os melhores poetas portuguezes», dá a esta versão um aspecto mais réles e burguez, pois diz que D. Francisco «era victima da vingança de uma alta personagem a quem offendera sem o saber, e sem intenção; pois encontrando-se os dois ás escuras em casa de certa moça, passaram ambos a vias de facto e houve entre elles alguns bofetões».
Por esta fórma o enfadonho Costa e Silva conserva o odioso da historia, tirando o perfume romantico á pittoresca aventura de capa e espada.
Por outra maneira se quer explicar o caso n’uma advertencia, que se encontra no codice da Bibliotheca Publica, a que já nos referimos. Diz assim: «D. João José Ansberto de Noronha, Conde de S. Lourenço, homem de prodigiosa memoria e muito grande instrucção em toda a litteratura e historia, me disse hoje, 4 de Maio de 1790, que não ouvira jámais fallar nesta briga, mas sim que sendo D. Francisco Manoel suspeitoso ao Rei por algumas informações de Castella, ou verdadeiras ou falsas, fizera propor a D. Francisco Manoel, pela Condessa de Villa Nova, o plano de uma conspiração contra o Rei, ferindo pelos mesmos pontos das noticias ou suspeitas que tivera. Á conversação desta nova Dalila assistio o Rei, occulto com hum panno de raz, e o infeliz amante tendo a fraqueza de condescender na proposição, e a fineza de não a denunciar, cahio na desgraça do Rei para não incorrer na de traidor».
O Bispo do Gram Pará nas suas memorias conta a mesma historia pela fórma seguinte: «A Condessa de Villa Nova e Figueiró foi objecto da affeicção de D. Francisco Manoel de Mello. Allude a ella quando diz: Nuevo la vi. D. João IV querendo provar a fidelidade de D. Francisco persuadiu a Condessa que o tentasse.