D. Francisco para lisonjeal-a disse que seguiria o partido de Castella. Foi preso.

Assim m’o revelou o Conde de S. Lourenço».

Essa historia deixa assim collocados, ainda mais desastradamente que a outra, os que n’ella entram.

D. João IV passa a ser um esbirro, um aguazil; a Condessa uma sereia perfida e desprezivel; D. Francisco um patetinha lamecha e pueril; e o Conde de S. Lourenço um bisbilhoteiro indiscreto.

Sem pretender arvorar-me em paladino d’este meu avô, querendo desvanecer defeitos ligeiros que, se porventura os tivesse, eram bem compensados pelas qualidades brilhantes, que dão tão grande interesse á sua personalidade, devo dizer que é muito duvidosa a authenticidade de qualquer d’aquellas affirmativas, e sobretudo das insinuações malevolas que encerram.

A Advertencia, onde são colhidas, é uma nota anonyma lançada n’um codice e não merece grande confiança. A segunda variante é tirada das Memorias do Bispo do Gram Pará, manuscripto publicado por Camillo, de cuja authenticidade alguns duvidam.

Mas se effectivamente o Conde de S. Lourenço tivesse referido o caso a Frei João de S. Joseph, não o affirmava como testemunho (pois a scena se passára havia mais de um seculo), mas apenas como echo dos zum-zuns maliciosos trazidos na tradição, e ainda não registrado na chronica escandalosa.

Este Conde de S. Lourenço foi, com mais trinta e tantos companheiros, preso á ordem do Marquez de Pombal no Forte da Junqueira, onde esteve dezoito annos.

Era tão excepcional a sua memoria que se conta ter escripto nas paredes do carcere o «Velho e Novo Testamento», sem auxilio de livro. Parece que tambem escreveu um «Tratado para a educação do Principe», que nunca chegou a publicar-se.

Os dissabores passados na masmorra, que um companheiro de prisão—o Marquez de Alorna—descreve no livro intitulado «Prisões da Junqueira», deram ao seu espirito uma ampliação morbida na visão das cousas, um poder maravilhoso de evocar personagens e factos que a sua imaginação ideava. Quando sahiu da cadeia, e recolheu á casa da Congregação do Oratorio, onde foi companheiro do poeta Bocage, a originalidade da sua conversação dava a muitos, que não possuiam a facilidade de comprehender os cambiantes da palavra, a impressão de que a sua razão desvairava. Outros, tomando á lettra as divagações da fecunda phantasia, registravam-n’as como assertos. Assim o Bispo do Gram-Pará e o anonymo da Advertencia terão recolhido como affirmações, simples boatos, que o Conde referia, se é certo que os referiu, pois não estava isso na indole intellectual do auctor da «Carta ao Marquez de Ponte de Lima sobre a Regencia do Reino».