Voltando agora ás causas da prisão de D. Francisco Manoel, e pondo de parte as explicações romanescas, (posto que pareça certo que o infortunado poeta teve effectivamente uma paixão pela formosa Condessa) inclinamo-nos a que a perseguição, que soffreu, tivesse sido motivada por odios politicos. Entre os seus perseguidores parece na verdade ter figurado D. Gregorio, o marido da Condessa. Mas não ha indicios de ter sido o ciume que o aguilhoou na sua furia contra o amoroso D. Francisco.

Rancor é certo que existia, como prova uma carta do Embaixador de Hespanha em Roma ao Rei D. Filippe, em que dá noticia de o Conde reclamar contra a presença de D. Francisco na capital, depois de ter sido solto.

Prestage, no seu livro, onde o leitor póde encontrar «tudo o que se tem escripto sobre esta questão tão complexa», aponta de passagem uma circumstancia, que abre um horizonte á critica e um incentivo a novas investigações. Refiro-me á condemnação de D. Agostinho Manoel, parente de D. Francisco. Tudo leva realmente a crer que a causa da accusação fosse semelhante á que tornou suspeitos e acarretou ao patibulo este D. Agostinho, o Duque de Caminha, o Marquez de Villa Real e o Conde de Armamar.

A atmosphera de desconfiança e suspeição, creada na sociedade portugueza pela conspiração dos Grandes contra D. João IV, e o estado de espirito do monarcha, ameaçado de perder a corôa, são motivos sufficientes para explicarem a perseguição que D. Francisco soffreu.

É eloquente aquelle periodo do «Memorial» dirigido por elle a El-Rei, a quem diz: «No mesmo dia em que eu estava diante de um esquadrão (no Alemtejo), governando-o contra os inimigos de Vossa Majestade, estava alguma pessoa—que d’esta pratica já haverá dado a Deus contas—n’esse Paço persuadindo a Vossa Majestade me mandasse prender porque eu sem duvida, a juizo da sua bondade, hia com animo de me passar a Castella. Fundava bem essa sua suspeita em me haver eu escusado de testemunhar contra Francisco de Lucena aquillo que eu não sabia».

É emquanto a mim n’estas palavras do proprio D. Francisco Manoel, dirigidas ao Rei, que se deve ir procurar a explicação da sua odysséa. E na excitação dos espiritos, vibrantes ainda com a tragedia do Rocio que pôz um epilogo á conspiração, é que se deve buscar o fermento com que os inimigos do talentoso escriptor, architectaram a sua desgraça.

Ciumes, se os houve por parte de um marido, só podem ter contribuido para que este diligenciasse prolongar o encarceramento.

Da parte do Rei, que se correspondia em cartas com D. Francisco Manoel, depois de preso, e que até o consultava sobre negocios publicos, não se nota vislumbre de azedume ou rivalidade; como tambem não transparece em tudo quanto D. Francisco escreveu.

Então que resta da imaginada vingança de um Rei que ardendo em zelos ferinos se transforma em «algoz coroado»?

Phantazias de novellistas!