Em toda esta emmaranhada questão aguça-nos a curiosidade saber alguma cousa acerca da heroina do romance (se o houve), aquella requestada Condessa de Villa Nova, cuja physionomia esquiva se rebuça n’uma mantilha de mysterio.

O Conde D. Gregorio foi casado trez vezes. E não concordam aquelles que mais acreditam na rivalidade entre o Rei e o escriptor, sobre qual das trez Condessas enfeitiçou a ambos. Uns preferem para causadora da tenebrosa historia a primeira, que foi D. Brazia ou D. Branca de Vilhena, filha do Conde da Sortelha. Outros talvez prefiram como enredadora do drama amoroso D. Guiomar da Silva, segunda mulher do Conde D. Gregorio e filha do Conde de Odemira. Finalmente, Camillo, seguindo os genealogistas que consultou, decide-se pela terceira, D. Marianna de Lencastre «de peregrina formosura e a mais cantada dos poetas fidalgos d’aquelle tempo».

E com a phantazia camilliana decide sem hesitação que o Conde seu marido envenenara esta terceira consorte, como já tinha envenenado as duas primeiras, e apresenta-o como um Borgia, prodigo em ministrar fortes dóses de peçonha ás successivas condessas.

Ora, a «Historia Genealogica» e alguns linhagistas bem informados dão noticia de que D. Marianna, dezoito ou vinte annos depois d’este drama, não só estava com vida, mas casou segunda vez com o Conde de Aveiras, Luiz Telles da Silva, tendo enviuvado do Conde de Villa Nova a 14 de Abril de 1662.

Se é certo que tivesse havido da sua parte qualquer especie de sentimento pelo talentoso fidalgo, encarcerado a 19 de Novembro de 1644, já de ha muito o coração lhe arrefecera, não tendo resistido á ausencia do amoroso poeta, que ia transitando de carcere para carcere, do Castello para a Torre de Belém: da Torre velha para Ribamar...

E elle? Que sentia na prisão onde permaneceu tantos annos?

«Entrei n’esta prisão honrado, sahirei por força abatido; entrei são, sahirei doente; entrei mancebo, sahirei velho; entrei accommodado, sahirei pobre. Tudo o que perco, e já não posso cobrar, dou por bem perdido quando a grandeza de Vossa Majestade não consentir acabem meus inimigos que eu entrando tambem innocente, saia culpado».

Estas palavras dirigidas ao Rei não dão a impressão de um rival despeitado e opprimido, fallando ao seu competidor victorioso. Não falla ahi (nem é natural que fizesse confidencias amorosas n’um memorial ao Rei) nos sentimentos que porventura o atormentavam, como tambem pouco ou nada se fazem sentir os seus infortunios de coração nas obras que escreveu—cartas, apologos, poesias ou tratados.

Quem, porém, esquadrinhar bem os seus escriptos encontra phrases, que abrem frestas reveladoras sobre a alma do captivo sentimental, que sabia fallar de amor. Assim, diz elle: «quando nisso me ponho, sei amar de uma arte nova. Porém, tambem digo que passar ruins dias e peiores noites por gente loureira é cousa trabalhosa».

Se quando isto escrevia ainda não estava preso, o que sentiria quando nas longas noites da Torre de Belém, banhada pelo Tejo que o luar chapinhava, ruminasse sobre a fidelidade da leviana e loureira creatura que porventura, á mesma hora nos Paços da Ribeira em festa, escutava galanteios e finezas?