«Encerrado en una torre,
me guardan dentro del mar,
como en el nacar la concha
guarda la perla oriental».
Pobre poeta esquecido! Pobre coração atormentado!
Para suavisar amarguras, trocou angustias sentimentaes em moeda litteraria.
As lettras, que são um grande refugio espiritual, trouxeram-lhe uma occupação, e dos annos passados na inactividade forçada resultaram algumas das obras primas da litteratura portugueza.
«Aos emulos que o perseguiram, escreve Herculano, deve elle a gloria que cerca o seu nome.
Se não fosse a dura e larga prisão, porventura teria gastado os seus dias no meio dos tumultos da guerra e dos enredos cortezãos. Assim, os invejosos que pretendiam deprimil-o, foram aquelles mesmos que contribuiram para que lhe coubesse o que neste mundo mais preço e valor tem—o renome e a immortalidade».
Prestage tambem considera bemaventurados os infortunios de D. Francisco Manoel, «que delle fizeram um grande homem e um grande escriptor».
Será assim? Talvez não! Costumam os amadores do canto de certas aves cegal-as com um ferro em braza afim de as tornarem mais canoras e melodiosas. Quer-me parecer que as volatas do rouxinol nos salgueiros, e que os trillos do pintasilgo nas giestas, tem mais sabor e harmonia que os gorgeios por força dolentes do «ruysenhol captivo que canta de noute e faz saudades», ou que o pintasilgo preso ao poleiro, por cadeia de latão, na loja do barbeiro.
É pois de crer que o talento de D. Francisco Manoel, desabrochando livre nos paços, nas salas nobres, nos campos de batalha, no convivio do seu amigo Quevedo—o pae da graça—e nas tardes de ocio no Rocio, onde os casquilhos da Côrte tinham prazo-dado, teria produzido mais «Apologos dialogaes», mais «Guerras da Catalunha», mais «Epanaphoras» e mais obras poeticas, embora fosse mais reduzido o numero de allegações juridicas e memoriaes.
Mas, metade dos seus cem volumes que escrevesse, já eram de sobejo para immortalizar o classico escriptor que marca uma phase na evolução da nossa lingua.