A obra de Prestage sobre D. Francisco Manoel de Mello é o que os Inglezes chamam an exhaustive work.

Desde a noticia sobre a familia em que nasceu, até ao ultimo capitulo em que faz um apanhado sobre o homem e o escriptor, os seus amores e a sua descendencia, o auctor do ensaio vae seguindo com minuciosa attenção cada um dos trabalhos litterarios do prodigioso polygrapho, tirando d’elles preciosos dados para a sua biographia e para a analyse psychologica da sua interessante individualidade.

Os capitulos sobre o exilio no Brazil; sobre as viagens; sobre a «academia dos generosos», em que ha a curiosa relação dos certamens, e a lista dos socios; sobre as negociações para o casamento de D. Affonso VI e sobre a morte do escriptor, encerram paginas não só de biographia, mas de historia.

E dos documentos que são annexos ao volume, alguns ha bem curiosos, como aquelle que testemunha as relações de D. Francisco Manoel com o Governo hespanhol logo depois da Restauração, e que tanto fazem meditar sobre a concepção de patriotismo n’aquelle turvado periodo. Augmentam esses documentos o valor da obra, e tiram-lhe todo o caracter de panegyrico, pois não poupam o espectaculo de algumas mazellas espirituaes.

O ensaio biographico está destinado a ser não só o breviario de todos aquelles que quizerem conhecer D. Francisco Manoel de Mello, mas a formar a base fundamental do monumento que é devido ao inconfundivel escriptor.


Esta obra faz cahir o véo de sobre alguns pontos escuros e duvidosos da vida de D. Francisco Manoel, e, por engenhosas e rebuscadas conjecturas, encaminha o espirito do leitor a hypotheses provaveis. Mas não tem pretenção a desvendar de vez muitas das circumstancias em que está envolvida a existencia do interessante vulto seiscentista, nem dissipar por completo essa nebulose que nunca se esfarrapará em volta do nome prestigioso do escriptor.

No frontespicio de muitas das suas obras figura a enygmatica palavra: «Quare?»—«Por que?»

A concisão com que é feita essa pergunta encerra um mundo de interrogações, que dão á figura de D. Francisco Manoel de Mello juntamente com a poesia do infortunio, a poesia do mysterio.