Entre as borboletas loiras, que esvoaçam em volta das lampadas electricas de Leicester Square em Londres, ha expressões virginaes, olhos azues cheios de innocencia, sorrisos ingenuos que se transformam em espasmos lubricos apenas se vendem por alguns schillings. Em compensação quanta manola sevilhana se pavonea no passeio das Delicias, de cigarro ao canto da bocca e punhal na liga, que não consentiria sequer que um atrevido esboçasse o minimo gesto de familiaridade equivoca.

A mulher de Claudio tinha no rosto as linhas hieraticas da sua dignidade imperial, e comtudo, chegada a noite, prostituia-se nas alfurjas de Roma, tornando um symbolo o seu nome de Messalina. Ao contrario, Jeanne d’Arc cavalga escarranchada e vestida de homem á caça de Inglezes nos campos de Patay, dorme nos arraiaes, de conserva com os arcabuzeiros de Carlos VII, e sahe pura, virginal, intemerata de todas as promiscuidades perigosas.

Assim a nossa heroina.

A pureza do seu espirito, a castidade do seu organismo preservam-n’a de avaria no contacto com a marujada, e nas intimidades do dormitorio.

Alma e corpo atravessam immaculadas as concupiscencias dos rudes mareantes.

Passaram dias. A travessia n’aquelle tempo, embora o barco fosse veleiro, era demorada. E a derrota não isenta de perigos n’esses mares infestados de piratas mouros e christãos. O capitão porém era homem de longa pratica, muito saber e prompta resolução. Entretanto havia nas suas maneiras dubias qualquer cousa que inspirava desconfiança a Antonia. A sua perspicacia teve ensejo de apurar-se na forçada convivencia de bordo e o seu faro não a enganava, como veremos.

Aproaram emfim a Mazagão, cuja fortaleza e casaria branca o pequeno grumete, trepado á verga da sobre-prôa, foi o primeiro a signalar.


Tinham os Portuguezes aportado alli em 1502 (havia quasi um seculo) e logo edificaram um castello no sitio em que existia uma torre. Mais ao deante, quando o Duque de Bragança D. Jayme voltou da sua expedição famosa da tomada de Azamor, que fica d’alli duas leguas, tão boas informações deu a El-Rei D. Manoel sobre a excellente bahia e amenidade do sitio, que logo este resolveu mandar para alli o architecto João de Castilho, o Velho, que, levando operarios e materiaes, entrou a construir a cidade.

Asturiano de nascimento, mas Portuguez de coração, o talentoso artista dotou a sua patria adoptiva de formosos monumentos. Compoz em pedra alguns dos mais bellos poemas da arte manuelina. Foi o auctor das abobadas e pilares do Cruzeiro dos Jeronymos em Belem; foi o mestre das obras da Batalha por morte de Matheus Fernandes; e foi-o tambem das obras reaes no Convento de Christo em Thomar. Poeta na architectura, lança ainda uma projecção luminosa sobre o nome de dois vultos eminentes no patriciado das lettras portuguezas—os dois Castilhos nossos contemporaneos.