Em 1543 João de Castilho, depois de ter estado em Arzila, parte para edificar a praça de Mazagão e delinear a cidade, que ainda hoje conserva tantos vestigios do dominio portuguez.

Poz n’esse trabalho toda a sciencia que exigia a construcção d’uma fortaleza a cada passo atacada pela moirama, que vinha aguerrida e cheia de sanha em tentativas de vingança assediar esse porto portuguez. E poz nas construcções toda a arte com que o seu genio se enriquecera em Italia, então em plena explosão de Renascença. Os baluartes, as bombardeiras de onde a grossa artilharia de bronze vomitava granadas em occasião de ataque, as seteiras dos parapeitos, as ameias ao longo das muralhas, a ponte levadiça sobre as fundas cavas, davam á curiosa fortaleza não só a segurança requerida, mas a elegancia, que caracteriza as construcções do nosso periodo aureo, tão lindamente manifestado na Torre de Belem.

Ás habitações da cidade João de Castilho deu a graça da sua arte, e as commodidades exigidas pelas condições sociaes dos moradores—ou gente da nobreza e familias da guarnição que da metropole tinham vindo acompanhar os seus parentes, ou mercadores que ensaiavam o trafico nos raros intervallos da paz.

Mazagão ficou assim constituindo um dos pontos fortificados d’essa costa de Africa ao longo da qual Ceuta, Tanger, Arzila, Azamor, Zafim serviam de theatro ás façanhas dos fidalgos, que alli iam ganhar as suas esporas de oiro, antes de passarem á India. Impellidos por esse espirito de cavallaria andante, que caracteriza grande parte da nobreza n’aquelle declinar da Edade Média, muitos faziam d’essas praças de Africa a sua escola de guerra. Em cada uma punhados de bravos arriscavam quotidianamente a vida em correrias, rechaçando com valentia os marroquinos que vinham de Fez, e colhendo, além de gloria, rebanhos de gado. Não era raro tambem aprisionarem formosas moiras, que traziam captivas ás suas noivas, ás suas mães, e ás suas damas, que as tomavam como escravas.

Não foi, porém, só de cruezas feita a epopeia de Portugal em Africa. Então, como agora, a par das brutalidades proprias da guerra, e da braveza com que o animal humano ataca o seu adversario, creaturas de bondade attenuavam com mãos piedosas os horrores da chacina. Assim o mostra o episodio passado em Alcacer—Ceguer no meiado do seculo XV, em que D. Izabel de Castro, Condessa de Vianna, esboça um movimento humanitario, que se torna um embrião da moderna Cruz Vermelha.

A mulher de D. Duarte de Menezes foi uma precursora das heroicas enfermeiras que, abandonando as frivolidades de uma vida de prazer, os confortos de uma existencia farta de gozos, e as elegancias, adornos e joias caras, envergam a simples bluza de linho, de que a braçadeira é divisa e galão honroso.

Passou-se o caso quando em 1459 o Rei de Fez resolveu tomar Alcacer, suppondo a guarnição exhausta e o Governador prestes a render-se. Dera-lhe essa esperança uma carta apprehendida no ar, atada ás pennas de uma seta. (N’aquelle tempo a correspondencia entre as praças e os navios era feita, á falta de telegraphia sem fios, por meio de setas). Ora uma, que levava a carta angustiosa de D. Duarte de Menezes, dirigida á caravella do Védor da Fazenda que viera do Reino, e com a noticia da penuria em que se achava, foi colhida por um moiro, e isso resolveu os Arabes a um combate encarniçado, de que afinal resultou a victoria para os nossos. No mais acceso da peleja aconteceu desembarcar, vinda de Lisboa, D. Izabel de Castro, mulher do Governador, com comitiva numerosa. Era a irmã do 1.º Conde de Monsanto, senhora de grande intelligencia e muita auctoridade entre a gente do seu tempo. Foi recebida com enthusiasmo pelos heroicos defensores da praça. E como na refrega muitos tinham cahido feridos, resolveu ella logo organizar soccorros e prodigalizar confortos espirituaes. Conta-o Ruy de Pina na sua chronica quando diz: «... assim pelo reparo que os feridos e doentes em sua cura d’ella recebiam, como pelo favor de suas donzellas com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam melhor de pelejar, porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas de homens honrados que, guardada em tudo a sua honra e honestidade, sabiam bem fallar e tratar os homens como mereciam». Estava assim esboçada a Cruz Vermelha.


Fechado este parenthesis voltemos á nossa Antonia, que tinhamos deixado abordando a Mazagão como grumete, na caravella carregada de cereaes, onde servia com o nome de Antonio.

Teve então o Governador uma denuncia certificando-lhe «que o mestre da caravella fizera furto e falsidade no trigo que levava». Procedeu-se a um inquerito, ou, como n’esse tempo se dizia, abriu-se uma devassa para averiguar, «tirando-se do caso testemunhas». Uma d’ellas foi o grumete Antonio, que compareceu perante uma especie de conselho composto do governador e alguns magistrados. Logo a todos impressionou a viveza do olhar do marujito, a sua expressão intelligente e decidida, a sua airosa cabeça enquadrada pelo cabello cortado á altura do mento, e aquella apparencia de ephebo, um mixto de escudeiro e de pagem, que lhe dava ao mesmo tempo um ar marcial, e a graça de cortezão.