Interrogado disse a verdade sem rebuço nem receio, a despeito dos olhares minazes do mestre do navio, que esperava assim atemorizal-o.
Não sabemos qual foi a sentença do Tribunal. É porém certo que Antonio revelou tudo, desde as suspeitas, que logo no principio da viagem o tinham assaltado ácerca da honestidade do mestre, até á prevaricação no caso das medidas. O rancor do embarcadiço transudava nos olhos injectados: pelo que não era de invejar a sorte que esperava o intrepido marujo, quando se achasse de novo na caravella á mercê do seu odio.
O Governador da fortaleza não consentiu portanto que o rapaz fosse exposto ás iras vingativas do mareante, e desde logo assentou praça, como soldado, ao grumete Antonio Rodrigues.
Começou elle immediatamente a mostrar a sua destreza no manejar das armas, e quando ia com os outros camaradas ás barreiras e estacadas a todos levava vantagem. Nas ruas e praças publicas, em occasião de exercicios, era tão desembaraçado na esgrima que logo passou a ser notada a sua pericia.
Fallando d’este periodo, diz o chronista seu contemporaneo: «fazia suas vigias de noite sem nunca faltar n’ellas, e com os soldados comia, e se deitava na cama, e dormia entre elles, vestido porém sempre com gibão e ceroulas, que nunca andava sem ellas, por onde não foi conhecido».
Durante mais de um anno fez serviço entre os peões. Mas notando-lhe as qualidades e valor o Capitão encorporou-o entre os de cavallo, dando-lhe soldo e mantimentos como aos outros cavalleiros.
Chegou então o capitulo mais brilhante da sua carreira militar, em que a valentia lhe proporcionou luzentes victorias sobre os moiros infieis, e o seu garbo conquistas sobre os corações christãos.
Diz d’elle o chronista Duarte Nunes de Leão: «Sendo de cavallo se avantajou dos outros a destreza, e bom ar, e ligeireza com que cavalgava do chão: e no commetter aos inimigos nas emprezas maiores e de importancia, sempre o Capitão o nomeava e mandava na deanteira como ao mais destro cavalleiro que tinha. E assim se achou em muitas pelejas e encontros onde foram captivos e mortos muitos mouros principaes e seus cavallos, de que Antonio Rodrigues participava como o melhor cavalleiro da companhia. Velava de noite nos muros seus quartos sem faltar, e sahia ao campo com sua espingarda a cavallo a fazer lenha e feno. E muitas vezes ajudava a matar porcos no campo dos mouros, de que trazia sua parte».
Quando vemos figuradas nos azulejos portuguezes as apparatosas caçadas ao porco bravo, em que cavalleiros de vistosas casacas e emplumados tricornes, perseguem com suas lanças, e seguidos de ululante matilha, o javardo, emquanto os couteiros, e moços do monte, sopram nas buzinas, concebemos facilmente como os heroes d’esse exercicio varonil, tão dilecto da gente de escol, alvoraçava imaginações femininas. E não nos causa espanto ver que n’aquelle canto da Africa o denodado caçador Antonio Rodrigues que tinha fama de atravessar com o acerado chuço a pelle dos animaes bravios, trespassasse tambem com os olhares os corações das formosas portuguezas.
«Por parecer um mancebo mui gentilhomem e de muita graça (diz o chronista) era mui bem olhado e favorecido das donzellas de Mazagão».