Entre ellas havia uma, cujo nome a historia não registra, talvez para não a vexar pelo seu equivoco, que se apaixonou loucamente pelo arrojado cavalleiro. Nos combates em que elle entrava, tão encarniçados que, segundo o costume, dois frades de São Francisco, com o crucifixo levantado contra os moiros, se collocavam no mais alto do castello para inspirar confiança aos soldados, não era raro ver a amorosa rapariga acompanhar as outras mulheres da povoação, moças e velhas que vinham dar agua aos homens, e que muitas vezes, deixando nas mãos d’elles os pucaros emquanto bebiam, arremessavam ellas pedras contra o inimigo.

Quando o combate cessava e todos recolhiam, Antonio Rodrigues era convidado a ir descansar a casa d’aquella, que muitos consideravam já sua noiva, e que era filha de «um cavalleiro principal». Ahi era recebido com affectuosa familiaridade pelos paes e mais parentes, que lhe offereciam dadivas como se já o considerassem genro ou pessoa da familia.

Antonia, receiando que o revelar a verdade trouxesse um natural escandalo, ou graves dissabores, e sendo-lhe tambem penoso desilludir a sentimental menina, deixava-se amar sem retribuir galanteios, e empregando meios dilatorios que a tirassem de difficuldades.

Este caso original de psychologia amorosa, já de si embaraçoso para qualquer casuista, e principalmente para quem andava mais habituado a escaramuças com agarenos que a justas de corações, ou embates de almas, complicava-se agora com um facto ainda mais curioso, e a que ella não era indifferente.

Entre os olhares com que as suas numerosas admiradoras solicitavam o seu, notava por vezes o de um moço militar de boa familia, que apenas se julgava presentido, o desviava, dissimulando. E por uma circumstancia inexplicavel, emquanto todos os camaradas tratavam Antonio Rodrigues desenfastiadamente, aquelle nunca lhe dirigia a palavra, ou se a dirigia era com visivel commoção.

Cantar-lhe-iam talvez na memoria, com mysteriosa significação, os versos d’aquelle romance tão lindo «A Donzella que vae á guerra», melopêa com que em creança sua aia o adormecia:

«Tende-los peitos mui altos
Filha conhecer-vos hão.
—Venha gibão apertado
Os peitos encolherão.


Senhor Pae! Senhora Mãe!
Grande dôr de coração.
Que os olhos do Conde Daros
São de mulher, de homem não!»