AMOR AOS LIVROS[2]


SUMMARIO

O livro na antiguidade. A paixão pelo livro—Bibliographos, bibliophilos, bibliomaniacos, bibliolatras, bibliotaphios, biblioclastas, bibliophobos. As encadernações. O livro do futuro—Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado.

Affirma Renan algures que, de hoje a algumas centenas ou milhares de annos, terão completamente desapparecido da memoria dos homens todos os livros que actualmente conhecemos, com excepção da Biblia e talvez das obras de Homero.

É possivel que a prophecia mofina do mais attico escriptor francez do seculo passado, sahida da sua penna prestigiosa n’um dia de melancholico desalento, venha a realisar-se, sendo precipitado no fundo sorvedoiro dos tempos todo o vasto cabedal do saber humano, desde que o pensamento se materialisou na palavra, e a palavra escripta se juntou a outras, para formar—o Livro.

E, assim como a acção destruidora dos flagellos tem devorado o recheio das mais famosas bibliothecas da antiguidade, taes como a que Osymandias estabeleceu no seu maravilhoso palacio de Thebas, e sobre cuja porta fez gravar a conhecida inscripção: Remedios para a alma, e a celebre de Alexandria, que Ptolomeu Soter dotou com os setecentos mil volumes, queimados depois, segundo a lenda, pelo musulmano Omar, ou desapparecidos com a ruina do templo de Serapis,—assim tambem a acção demolidora dos annos irá talvez, em successivos outomnos cyclicos, fazendo cahir no chão do esquecimento, e apodrecendo na terra, as folhas da grande arvore do saber humano, d’onde hão de sahir novas folhas vivas, pelos seculos dos seculos...

E, pela mesma fórma que pouco ou nada resta de tudo quanto compunha essas colossaes bibliothecas, em cujos escrinios e columbarios se encerravam os preciosos volumen de papyros de Saïs, fabricados com agua do Nilo, e de pelles respançadas de cordeiros de Pergamo,—é tambem para recear que, no cumprimento da prophecia do mestre, desappareça tudo quanto enche as modernas livrarias, cuja colossal bibliographia é impossivel organisar no seu conjuncto, tantos são os milhares de publicações que em cada dia e a cada hora apparecem em todos os paizes, escriptas em qualquer das seis mil linguas do mundo, e nascidas da vertiginosa producção litteraria da nossa epocha.

Se assim fosse, se o vacticinio se cumprisse, tempo haveria em que a humanidade do futuro não teria a delicia suprema de conhecer o effeito da leitura das obras primas, que nos legou a antiguidade hellenica e a latinidade classica; ignoraria a deleitosa impressão de sentir em consonancia com os poetas, que tem agitado a alma moderna; desconheceria o theatro de Shakespeare, o de Racine, o de Corneille e o de Molière, os tercetos de Dante, os sonetos de Camões, as obras de Schiller e as de Calderon e Cervantes; deixaria de admirar a força prestigiosa da palavra com que alguns privilegiados de genio tem feito vibrar os nervos do animal humano, e os trabalhos que tem transmittido o patrimonio da sciencia de geração em geração, n’esta faina incessante a que se convencionou chamar progresso; seria privada de avaliar a acção d’aquelles que dotaram a raça humana com ideias e beneficios; ter-se-hiam apagado na memoria dos homens os nomes de Newton, Lavoisier, Darwin, Pasteur... E, quem sabe? deixaria até, (se a revolução de que fallamos adeante se realisar,) de conhecer, de possuir, de consultar essa coisa preciosa que é o Livro.

O Livro! A paixão por esse objecto que na sua essencia se compõe apenas de laminas, de rolos ou de algumas folhas, em cuja superficie são traçados, pintados ou impressos alguns caracteres, symbolicos ou alphabeticos, sendo tudo envolvido n’uma capa ou capsa, que varia segundo a epocha, o gôsto e a fortuna do seu possuidor, essa paixão é uma das que mais fundas raizes tem no animo das gentes cultas, e que apresenta fórmas mais diversas.