Bibliographos, bibliophilos, bibliomaniacos, bibliolatras, bibliotaphios, e até mesmo (pois tambem existe a paixão do odio) biblioclastas e bibliophobos, são outros tantos amorosos do Livro, da sua essencia ou da sua fórma externa.
Que poderoso é o attractivo que exerce no animo do amador de livros a edição estimada, o exemplar raro, a encadernação de luxo!
Quem tem visto esse amador nas lojas dos nossos alfarrabistas—o velho Rodrigues, do Pote das Almas,—o Silva, por alcunha o Frade, da rua dos Retrozeiros, de quem o filho herdou, aperfeiçoando-a, a technica da sua arte, e a memoria feliz, que faz da sua cabeça um diccionario bibliographico; quem tem percorrido os estendaes dos ferro-velhos da Feira da Ladra, onde se vendem volumes a vintem; quem tem assistido aos leilões das bibliothecas que se dispersam, e observa a physionomia interrogadora e interessada d’esse bibliophilo que fareja e segue a pista do volume ambicionado, encontra-se perante um dos entes humanos, que mais exclusivamente é absorvido por uma paixão, e que, para a satisfazer, commetterá loucuras e até crimes.
Quem não conhece casos de bibliokleptas celebres, que roubam sem escrupulos livros que appetecem?
Uma edição princeps, como algumas das que encerra o quarto dos Reservados na nossa Bibliotheca Nacional; um volume raro, quer seja impresso, como o Boosco deleytoso, quer manuscripto, como o Cancioneiro d’Ajuda; uma encadernação da escola italiana ou franceza do seculo XVI, tem para os amorosos do livro, bibliophilos ou bibliomaniacos, o maior poder de seducção que na vida póde existir.
O prestigio do livro impõe-se por diverso modo, conforme a indole do apaixonado.
Querem alguns a sua bibliotheca composta de livros raros ou preciosos, embora em numero reduzido, como o nosso André de Resende, o archeologo eborense, ou como Barbosa Machado, o sabio oratoriano, que possuia uma das mais escolhidas bibliothecas do seu tempo, ou como o suisso Goulier, que vivia como um asceta, quasi sem comer, para, com as suas economias, poder comprar qualquer maravilha typographica de Jean de Tournes in-12ᵒ, ambicionada durante annos.
Querem outros a collecção numerosa, ou seja que a variedade e o prazer da ostentação os impulsione, como aquelle arcebispo de Evora que possuia onze mil volumes, aos quaes os maliciosos chamaram as onze mil virgens, ou que a sofreguidão e a furia de amontoar os domine, como o parisiense Boulard, que, na sua insania, chegou a comprar varios predios em Paris, os quaes foi recheando com os seiscentos mil volumes que pela sua morte deixou.
Livros ha cujo valor, para certos bibliophilos, nasce de circunstancias especiaes, alheias ás suas qualidades bibliographicas, como aquelle exemplar da 2.ª edição de Shakespeare que serviu de leitura a Carlos I na prisão, e que conserva notas á margem, da mão do infeliz monarcha; e aquelle outro manuscripto de Leonardo de Vinci, em que esse assombroso engenho do Renascimento italiano lançou as bases scientificas da aviação, preciosidades, que se conservam na bibliotheca de Windsor e que evocam tão grandes figuras. Quem não sentirá (mesmo os que não são dominados pela mania do livro) uma piedosa e particular commoção, ao contemplar o encantador volume das Horas da Rainha D. Leonor, pensando em que tanta vez n’aquellas paginas assentaram os olhos da intelligente viuva de D. João II, e foram folheadas pelas suas mãos esguias, nas vigilias da Madre de Deus; ou quem não apreciará, pelo seu valor archeologico e artistico, aquelle codex do mosteiro de Lorvão que A. Herculano fez conduzir para a Torre do Tombo, e cujas illuminuras são deliciosas precursoras das figuras hieraticas dos pintores modernos?