Para outros amadores de livros, têm mais seducção as lindas edições dos seculos XVII e XVIII, obras eruditas, pomposas, ostentando a gravidade do classicismo, impressas em papel de luxo, de largas margens, como convem á sua nobreza, ornadas de gravuras a buril, com iniciaes ornamentadas e vinhetas floridas terminando os capitulos, e o magestoso frontispicio a duas côres, seguido das licenças necessarias, e da emphatica dedicatoria a El-Rei Nosso Senhor, ao Principe ou ao Mecenas...

Alguns tambem ha ainda, colleccionadores, mais do que bibliophilos, que estimam sobretudo as Miscellaneas, tão usadas entre nós no seculo XVIII, e posteriormente, nas quaes o capricho do amador juntava folhetos das mais desvairadas proveniencias e diversos auctores, ou subordinava o feixe de opusculos a um assumpto determinado.

Mas o que a muitos encanta e seduz (e ainda hoje, como outr’ora ha quem possua riquissimas collecções d’esta especialidade) é o aspecto exterior do livro, independentemente da sua alma. Para estes a vestimenta, a encadernação é tudo, como tão pittorescamente o significa François Fertiault no seu livro «Sonetos de um bibliophilo», quando diz:

De loin vous en flairez l’arome avant-coureur;
Vous contemplez, ravi, sa date reculée;
Vous caressez du doigt sa marge immaculée,
Et de sa rareté vous prônez la valeur.
Vous en aimez la tranche à la vive couleur,
La nervure du dos, ou svelte ou potelée,
La robe au blanc satin, d’un filet dentelée,
Le noir chagrin, brodé par le fer du doreur.


As encadernações são, para alguns amigos do livro, um vasto capitulo cheio de delicias.

As de luxo, trabalhadas nas officinas venezianas e florentinas, que ornavam a bibliotheca do afamado Maoli; as celebres encadernações à la salamandre de Francisco I de França, e os artefactos dos famosos encadernadores de Henrique III e de Henrique IV, Nicolau Eve e seu filho Clovis, provocam ainda hoje a admiração de quem visita as bibliothecas onde ellas se encontram.

Foi entre nós um grande amador de bellas encadernações El-Rei D. João V, o Magnifico, que tinha enviados em todos os centros intellectuaes da Europa, com o encargo de comprarem as mais valiosas obras litterarias, e de as fazerem encadernar luxuosamente.

A maior parte d’essas maravilhas foram destruidas pelo terremoto, e pelo incendio que se lhe seguiu.

Os ricos exemplares doirados por folhas e com ellas azaradas; os de seixas finamente trabalhadas com oiro; os que apresentavam os mais bellos ferros nos seus marroquins; as encadernações em velludo vermelho, tão nobres, e as de pergaminho, tão severas; as lindas capas de madeira com metaes preciosos e outras de segredo, com a sua pequena corrediça onde se escondiam miniaturas profanas e licenciosas, ou reliquias devotas; as innumeras encadernações de phantasia, feitas com pelle de animaes diversos—a panthera, o crocodilo, a serpente, o bacalhau e a phoca—tudo foi destruido na catastrophe de 1755.