Não refere a historia se, n’essa espectaculosa bibliotheca do intelligente Rei, havia tambem, como n’algumas outras, encadernações feitas com pelle humana.
Estas phantasias macabras davam um valor especial ás obras a que se applicavam.
Assim, era grande a estimação em que o medico inglez Dr. Ashew tinha dois volumes encadernados com a pelle d’uma feiticeira do Yorkshire, Mary Ratman, que fôra enforcada pelo crime de assassinio.
Um rico negociante de Cincinnati mandou encadernar a Viagem Sentimental, de Stern, com a pelle d’uma negra; e com as das costas d’uma chineza o livro Tristam Shandy, do mesmo auctor.
Goncourt conta, no seu jornal, que um encadernador do Faubourg St, Honoré era especialista em aproveitar a pelle dos seios femininos nos seus trabalhos. E o editor Lireux affirma ter visto um exemplar da Justine, do Marquez de Sade, encadernado em pelle de mulher.
O insigne astronomo Flammarion foi uma vez convidado pela Condessa de Saint Auge, enthusiasta do seu talento, para ir passar uns dias no pittoresco castello que ella habitava no Jura. Parece que o sabio admirou com desvanecimento os hombros decotados da linda condessa...
Pouco depois, morria ella, e o seu medico escrevia a Flammarion dizendo que, para cumprir o desejo da morta, lhe enviava a pelle do peito que tanto o encantára na noite da despedida, pedindo-lhe que com ella fizesse encadernar o seu proximo livro.
É assim que, na bibliotheca do philosopho, figura ainda hoje a obra «Terras do Ceu», encadernada com a pelle da romantica condessa. E nas folhas azaradas a vermelho, do livro, fez o sabio semear estrellas d’oiro, que lhe recordam as noites scintillantes do Jura...
Extravagante idyllio!