Se o amor ao livro, como todo o sentimento humano, reveste as mais diversas fórmas, desde o culto que se dedica ao volume, que os olhos d’um ente querido e ausente leram em horas felizes ou em horas de tristeza e desalento, e desde a soffreguidão com que alguns ciumentos do livro (que tambem os ha), os conhecidos bibliotaphios, que, com sofrega avareza, reservam exclusivamente para si o uso das suas livrarias, até á ostentação dos vaidosos que adquirem por centenas de libras o exemplar unico que, n’um leilão retumbante, faça espalhar o seu nome por todo o mundo e lhes lisongeie o amor proprio—se essa paixão do livro é tão profunda e tão complexa, não o é menos o sentimento opposto—o dos bibliophobos e biblioclastas.
Por espirito religioso, ou de seita, ou de raça, ou de politica, a historia está cheia de casos de devastação de livros. Hecatombes medonhas! Inutil é mencional-as.
Mas de todas as causas de ruina d’essa coisa tão essencial até hoje á vida da humanidade—o Livro—duas predominam e ameaçam consumar o seu desapparecimento.
Uma, a acção destruidora do tempo com o seu cortejo de insectos, de humidades, de incendios, de vandalismos, de ignorantes despresos e do fatal esquecimento.
Outra, e essa está por emquanto apenas esboçada nas brumas do futuro, vem a ser a transformação da palavra escripta.
N’um recente estudo intitulado «Prosodia e Ortographia» Coelho de Carvalho tratando dos caracteres alphabeticos, e dos signaes representantes das syllabas escreve:
«Ora desde que se conhece que todo o som é resultado do movimento e que este, como todo o movimento deslocando uma porção de materia, traça no espaço uma linha, a successão de pontos por que a massa deslocada vae passando; e, sabendo nós que a falla é produzida pela mobilidade de uma massa de ar, que variamente impellida dentro do apparelho vocal, produz sons de modalidades diversas, conforme a intenção emotiva que determina a emissão do ar; e se a sciencia physica achou a forma pratica de tornar visivel, por instrumento de phonographia, a linha de cada um d’esses movimentos; nenhuns outros traços graphicos, senão aquelles que tal instrumento desenhar, podem ser representativos das unidades sonicas da linguagem.»
E propõe como unica reforma: «fazer na ortographia: substituir o alphabeto pelo syllabario systematisado da linguagem, substituindo, para dar o caracter da syllaba, as figuras sonicas que o phonographo nos der, á compilação das chamadas lettras».
Sendo assim, (e parece-me que o talentoso escriptor tem a visão d’uma revolução na escripta,) o que será no futuro o livro?
Um rolo phonographico?