Uma fita como a dos apparelhos Morse?
Voltarão as bibliothecas a ser a antigo columbarium, especie de pombal cujas paredes eram cheias de ninhos (que as tornavam semelhantes ás modernas lojas de papeis pintados) onde se encerravam os rolos que foram os primitivos livros?
No melhor dos casos, e conservando, por um movimento adquirido e tradicional, a antiga fórma, o que haverá nas suas paginas?
Caracteres cabalisticos. Figuras sonicas de mysteriosa apparencia.
Hão-de passar ainda, eu bem o sei, alguns lustros antes que se torne definitiva a reforma prevista, e antes que as gerações do futuro se habituem á pratica da racional, mas para nós (que vivemos na era do alphabeto) inesthetica fórma do livro que ha-de vir.
Quando ella, porêm, se realisar, apenas algumas das obras-primas da humanidade serão transportadas á nova graphia.
E o resto do actual patrimonio bibliographico?
Será considerado, por aquelles que usarem correntemente o syllabario phonographado, uma herança archeologica? Um thesouro de eruditos? Uma fórma anachronica da materialisação da palavra? Uma quasi enigmatica escripta cuneiforme?
É difficil atravessar com a vista algumas camadas de tempo, e poder futurar o que será a litteratura d’aqui a mil annos.
É certo, porém, que no homem ha-de haver sempre, cumulativamente com o anceio de novas conquistas, a curiosidade retrospectiva, o culto do passado.