E por isso é de crer que os netos dos nossos netos, querendo reconstituir o viver da antiguidade nos tempos em que se lia pelo alphabeto, deitem mão d’esses objectos, que para elles serão de curiosidade archaica a que seus avós chamaram—livros.
A esse tempo a livraria terá já perdido o seu caracter de ser vivo (pois uma bibliotheca é como um animal cujo organismo se renova incessantemente) e será um museu, como todos os museus, cemiterio de arte, sarcophago onde se conservam, como cadaveres, os objectos curiosos, que as passadas gerações nos legaram.
Para que essa herança preciosa se perpetue, ou para que, pelo menos a sua força, se prolongue por largas centenas de annos, devem tender os esforços d’aquelles que deveras amam o livro.
Por isso as sociedades dos bibliophilos têem na vida dos povos uma missão conservadora de incontestavel alcance, tanto mais benefica, quanto mais valiosos forem os monumentos a que o seu amor vigilante se applique.
A bibliographia portugueza é rica e gloriosa.
Patriotica e util é, portanto, a missão d’aquelles que—amadores, colleccionadores de livros e estampas, ou curiosos de bibliotheconomia, iconographia e artes subsidiarias do livro—se juntaram sob a invocação do venerando patrono Barbosa Machado. Com nenhum outro nome podia melhor baptisar-se esta prestimosa Sociedade, do que com o do erudito abbade de Sever, pois que, assim como elle, fundando a sua Bibliotheca Luzitana, assentou as bases da nossa bibliographia e nos legou um thesouro de conhecimentos inestimavel, assim os esforços d’esta Sociedade tenderão a conservar, para os tempos que hão de vir o patrimonio da Bibliotheca Portugueza.
NOTAS DE RODAPÉ:
[2] Prefacio do primeiro numero do Boletim da Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado.