Subamos depois as escadas do palacete da Rua Formosa, onde D. Maria Kruz recebe, como na sala azul d’um novo hotel de Rambouillet, a fina flôr e a nata da intellectualidade do seu tempo: Garrett, janota, disfructando a plena aura do principado das lettras e favoneiado pela sua nomeada romantica; José Estevam com a sua facundia grandiloquente, enthusiasta, exhuberante; Casal Ribeiro, de sorriso ironico, pequena estatura, grande cabeça, maior talento; Fontes, o estadista mais representativo do systema representativo; Rebello da Silva, que entrançára já na corôa de louros, ganha com os seus trabalhos historicos, a Mocidade de João V; Andrade Corvo, homem de sciencia, que interessava as leitoras de romances com o seu Anno na Côrte.
Avancemos pela calçada dos Caetanos, até casa dos Ficalhos, onde a Condessa, seguindo as tradições maternas, e o Conde, a mais completa individualidade do seu meio—homem de sciencia, homem de lettras, homem do mundo—acolhem, tempo depois Antonio de Serpa, que transita, com o espirito sempre moço, d’aquella sociedade para esta, e vem camaradar ainda com a garrula precocidade tão promettedora de Carlos Valbom; com o engenho pluriforme de Oliveira Martins; com a espiritualidade zombeteira de Eça de Queiroz; com a perspicacia diplomatica de Luiz Soveral sempre monoculisante; com o talento polytypico de Carlos Mayer; com a gloria já consagrada de Guerra Junqueiro, o poeta; com a sociabilidade communicativa de Bernardo Pindella, privilegiado da natureza e enfant gaté de todas as salas.
Caminhemos mais e paremos em S. Carlos nas noites de gala (um deslumbramento!) ou nas de simples recitas, e alli encontraremos em cada camarote nomes que significam alguma coisa.
Ouviremos recordações dos tempos de Farrobo, das festas das Larangeiras, e, por uma associação de ideias, das dos Marquezes de Vianna, de Penafiel, dos Palmellas, ou no Calhariz, com as representações da Sobrinha do Marquez, ou no Rato, com as do Marquis de Villemer... E entrando n’esse palacio do Rato percorramos o atelier da Duqueza tão inspirativo d’arte e opulento de maravilhas; e as salas onde os retratos de Lawrence sorriem acolhedores; e a casa de jantar onde as ceias em honra da Duse e de Sarah Bernhardt eram espiritualisadas pela conversação de Maria Amalia Vaz de Carvalho, de João da Camara, de Mousinho de Albuquerque, de D. Antonio de Lencastre.
Desçamos depois o Chiado em tardes alegres de inverno, quando a tafularia fervilha em busca de modas novas na Aline, ou de commoções mysticas nas conferencias religiosas dos Martyres, e emquanto grupos no seu lazer meridional, ás portas das tabacarias e livreiros, observam as mulheres que passam ou paroleiam sobre os casos do dia.
E n’esses grupos veremos Antonio Ennes depois de acabar o artigo para o Dia; Gervasio Lobato—o Labiche portuguez—; Sousa Viterbo que, apesar de erudito e investigador, aprecia o modernismo e vae á livraria Gomes buscar ferramenta litteraria; José Antonio de Freitas, culto espirito de lettrado, e fluente conversador, que informa ácerca dos ensaios, em D. Maria, da sua traducção do Hamlet; e Alberto Braga, que justifica a sua reputação de cavaqueador inegualavel.
Passemos depois na Avenida entre as olaias em flôr quando pela tarde se cruzam equipagens de luxo, e cavalleiros em puros-sangues acompanham amazonas irreprehensiveis, que por vezes são a Rainha D. Amelia, a Condessa de Paris, a Princeza Helena, futura Duqueza d’Aosta.
Avancemos até ao Campo Pequeno e alli podemos ainda assistir a algumas touradas vistosas, das que fazem lembrar as do Castello Melhor e as do Vimioso.
Retrocedamos agora e vamos ao Parlamento. Nos Deputados discursa, manejando cifras com a clareza de um professor e a habilidade de um algebrista, Marianno de Carvalho, mathematico e politico.
Na dos Pares escutaremos, n’um assombro, a voz de Antonio Candido, que dá á tribuna portugueza a magestade da eloquencia atheniense.