Vamos depois alli perto a Jesus, á Academia Real das Sciencias, onde authenticos Principes de Sangue confraternizam com os Principes da Sciencia e das Lettras que são Latino Coelho, Thomaz de Carvalho, Pinheiro Chagas o Conde de Ficalho. E, se atravessarmos as ruas da Baixa, talvez vejamos maravilhados passar alguns d’aquelles cortejos deslumbrantes em que os coches de D. João V, bamboleando-se suspensos em corrêas, ou as lindas carruagens amarellas de gala á ingleza, transportam Soberanos, Princezas formosas e as suas Damas emplumadas...
Sem pretendermos alongar este escolio e sobrecarregar demasiadamente a nomenclatura, recordemos que n’essa sociedade dos ultimos sessenta annos, havia grandeza, intellectualidade, elegancia, brilho, movimento, tudo o que seduz, e attrahe e encanta, tudo o que causa la douceur de vivre.
Foi esse o meio que Ramalho veiu encontrar em Lisboa, que logo captivou as suas tendencias e em que foi acolhido com agrado.
O seu espirito apetrechado para a critica dos costumes com uma intelligencia sã, um grande poder de ironia, um engenho independente, uma luneta de vidros ampliadores, e uma mochila recheiada de factos, de phrases incisivas, de piparotes petulantes, de dardos ligeiros, e beliscões travessos, não se voltou contra essa sociedade, frondeur ou juvenalesco, como muitos querem assacar-lhe, vendo nas suas obras contradicções e incoherencias.
Não! O que elle atacou de frente foi outra classe, que junto a esta vivia, por um phenomeno de superfetação social. Ridicularisou as rodas em que meninas olheirentas e homens casposos, de unhas sujas, arremedavam os grandes modelos romanticos, deformando-os com sentimentalismo réles: deu palmadas nos ventres venerados de personalidades balofas; troçou da burguezia macaqueadora das raças velhas, de quem usurpára corôas e brazões; espetou com alfinete escarninho os balões assoprados pelo charlatanismo indigena; caricaturou graves personagens conselheiraes, e envolveu n’uma surriada devastadora tudo o que era postiço, falto de valor moral e de sinceridade.
A par d’isto prégou hygiene a uma geração que a ignorava. Ensinou a ensaboar muitos corpos faltos de limpeza. E, com aquelle poder de suggestão, que era uma das qualidades do seu talento, quantos banhos frios elle fez tomar no pino do inverno a pobres rheumaticos, que depois da leitura das Farpas, obedecendo submissos aos mandamentos do apostolo, iam tiritantes, sacrificar-se sob a chuva de douches matinaes!
Quanto fato talhado á ingleza appareceu, com o seu exemplo, substituindo janotismos pretenciosos em corpos de peralvilhos!
E a quantos pés atormentados em escarpes e botas afiambradas o seu andar, pisando bem, ensinou a calçar sapatos folgados de sola grossa!
Pôs á moda ser lavado e ser alegre. O seu rir tinha mais de Rabelais que de Voltaire.