Orgulhoso da sua penna, manejava-a com a elegancia d’um mosqueteiro seiscentista de capa e espada, ostentando no sombreiro de aba larga a pluma tremulante de generosas illusões, nascidas na sua perenne mocidade.
De uma das vezes que um grupo de amigos a que Ramalho pertencia, e que se reunia periodicamente, ora no Hotel Bragança, onde a garrafeira era famosa, ora debaixo das latadas verdejantes da «Perna de Pau», uma horta afamada dos suburbios de Lisboa, e durante um dos repastos, cujo fim principal era cultivar a planta rara de uma camaradagem isempta de outros interesses que não fossem o convivio espiritual e o despretencioso commercio de ideias, trocadas á medida que iam borbulhando nas nascentes, sem preoccupação de litteratice ou emphasis academica, Oliveira Martins, por quem então a aza da politica ainda não tinha roçado, conservava-se callado e alheio á palrice geral.
Era assim ás vezes o Philosopho, como amigavelmente os do grupo lhe chamavam, admirando-o e venerando-o como Sabio na dupla acepção d’esta palavra, isto é: homem de Sciencia e possuidor de Sabedoria.
Se os seus silencios eram acatados, a sua palavra era escutada com carinhosa attenção. N’esse dia, despertado por um pendor da conversação, começou a discorrer ácerca da intoxicação das almas pelos venenos distillados com a faina excitante da vida moderna, toda cheia de luctas de interesses, de combates de opinião, de ancias de subir, de struggleforlifismo.
E depois, com aquelle inclinar de cabeça que lhe era proprio, ia demonstrando como a Egreja Catholica, sempre previdente em armazenar confortos espirituaes, soubera encontrar o remedio para retemperar cerebros e vigorar animos atacados da nevrose da vida agitada; aconselhando o isolamento individual, ou collectivo na contemplação e contacto directo com a natureza.
E então, entre sério e risonho, suggeria, que, semelhantemente, como prophylaxia moral para o grupo, e tonico efficaz para cada um dos seus membros, realisassemos um retiro espiritual laico na solidão da serra da Arrabida.
A alma de poeta de Oliveira Martins, o seu mysticismo sonhador, o seu desdem pelo vulgo e pela Deusa Banalidade, davam-lhe a faculdade de considerar realisavel este projecto, embora proposto com sorridente falta de confiança na vocação dos eleitos. Com o leve pessimismo que melancholisava a sua concepção da existencia, trazia desde já para designar a comunidade aquella formula então para alguns inexplicada—Os vencidos da vida.
Esta proposta da fundação de um novo Port Royal, ainda que nas deliciosas sombras que envolvem o palacio do Calhariz (que seria pedido aos seus proprietarios); este projecto de vida monastica embora laical e ephemera, apresentado assim em circumstancias tão avessas á sua realisação, encontrou um acolhimento de natureza reservada em todo o grupo, sendo recebido, conforme os temperamentos respectivos, entre o ligeiro franzir de sobrolhos exclamativo, e o sorriso quasi zombeteiro dos mais irreverentes.
Um, porem, o encarou a sério com a sinceridade que punha em todas as manifestações da sua alma. Foi o mais alegre de todos nós, o mais são de espirito, aquelle de quem Carlos Mayer, na sua pittoresca linguagem, vendo-o chegar, alto, aprumado, exhuberante de vida, bem assente na existencia dizia: «Lá vem elle com a sua Ramalhal figura.»